fichas de estudo unidade inicial
 
 
 
FICHAS DE ESTUDO UNIDADE INICIAL
 
Algumas noções de lógica


António Aníbal Padrão
Escola Secundária de Alberto Sampaio, Braga
 
Introdução
 
Todas as disciplinas têm um objecto de estudo. O objecto de estudo de uma disciplina é aquilo que essa disciplina estuda. Então, qual é o objecto de estudo da lógica? O que é que a lógica estuda? A lógica estuda e sistematiza a validade ou invalidade da argumentação. Também se diz que estuda inferências ou raciocínios. Podes considerar que argumentos, inferências e raciocínios são termos equivalentes.
Muito bem, a lógica estuda argumentos. Mas qual é o interesse disso para a filosofia? Bem, tenho de te lembrar que a argumentação é o coração da filosofia. Em filosofia temos a liberdade de defender as nossas ideias, mas temos de sustentar o que defendemos com bons argumentos e, é claro, também temos de aceitar discutir os nossos argumentos.
Os argumentos constituem um dos três elementos centrais da filosofia. Os outros dois são os problemas e as teorias. Com efeito, ao longo dos séculos, os filósofos têm procurado resolver problemas, criando teorias que se apoiam em argumentos.
Estás a ver por que é que o estudo dos argumentos é importante, isto é, por que é que a lógica é importante. É importante, porque nos ajuda a distinguir os argumentos válidos dos inválidos, permite-nos compreender por que razão uns são válidos e outros não e ensina-nos a argumentar correctamente. E isto é fundamental para a filosofia.
 
O que é um argumento?
 
Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.
Supõe que queres pedir aos teus pais um aumento da "mesada". Como justificas este aumento? Recorrendo a razões, não é? Dirás qualquer coisa como:
Os preços no bar da escola subiram; como eu lancho no bar da escola, o lanche fica me mais caro. Portanto, preciso de um aumento da "mesada".
Temos aqui um argumento, cuja conclusão é: "preciso de um aumento da 'mesada'". E como justificas esta conclusão? Com a subida dos preços no bar da escola e com o facto de lanchares no bar. Então, estas são as premissas do teu argumento, são as razões que utilizas para defender a conclusão.
Este exemplo permite-nos esclarecer outro aspecto dos argumentos, que é o seguinte: embora um argumento seja um conjunto de proposições, nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Por exemplo, o seguinte conjunto de proposições não é um argumento:
Eu lancho no bar da escola, mas o João não.
A Joana come pipocas no cinema.
O Rui foi ao museu.
Neste caso, não temos um argumento, porque não há nenhuma pretensão de justificar uma proposição com base nas outras. Nem há nenhuma pretensão de apresentar um conjunto de proposições com alguma relação entre si. Há apenas uma sequência de afirmações. E um argumento é, como já vimos, um conjunto de proposições em que se pretende que uma delas seja sustentada ou justificada pelas outras — o que não acontece no exemplo anterior.
 
Um argumento pode ter uma ou mais premissas, mas só pode ter uma conclusão.
Exemplos de argumentos com uma só premissa:
Exemplo 1
Premissa: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Logo, alguns europeus são portugueses.
Exemplo 2
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Exemplos de argumentos com duas premissas:
Exemplo 1
Premissa 1: Se o João é um aluno do 11.º ano, então estuda filosofia.
Premissa 2: O João é um aluno do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João estuda filosofia.
Exemplo 2
Premissa 1: Se não houvesse vida para além da morte, então a vida não faria sentido.
Premissa 2: Mas a vida faz sentido.
Conclusão: Logo, há vida para além da morte.
Exemplo 3:
Premissa 1: Todos os minhotos são portugueses.
Premissa 2: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Todos os minhotos são europeus.
É claro que a maior parte das vezes os argumentos não se apresentam nesta forma. Repara, por exemplo, no argumento de Kant a favor do valor objectivo da felicidade, tal como é apresentado por Aires Almeida et al. (2003b) no site de apoio ao manual A Arte de Pensar:
"De um ponto de vista imparcial, cada pessoa é um fim em si. Mas se cada pessoa é um fim em si, a felicidade de cada pessoa tem valor de um ponto de vista imparcial e não apenas do ponto de vista de cada pessoa. Dado que cada pessoa é realmente um fim em si, podemos concluir que a felicidade tem valor de um ponto de vista imparcial."
Neste argumento, a conclusão está claramente identificada ("podemos concluir que…"), mas nem sempre isto acontece. Contudo, há certas expressões que nos ajudam a perceber qual é a conclusão do argumento e quais são as premissas. Repara, no argumento anterior, na expressão "dado que". Esta expressão é um indicador de premissa: ficamos a saber que o que se segue a esta expressão é uma premissa do argumento. Também há indicadores de conclusão: dois dos mais utilizados são "logo" e "portanto".
Um indicador é um articulador do discurso, é uma palavra ou expressão que utilizamos para introduzir uma razão (uma premissa) ou uma conclusão. O quadro seguinte apresenta alguns indicadores de premissa e de conclusão:
 
 
Indicadores de premissa
pois
porque
dado que
como foi dito
visto que
devido a
a razão é que
admitindo que
sabendo-se que
assumindo que
 
Indicadores de conclusão
por isso
por conseguinte
implica que
logo
portanto
então
daí que
segue-se que
pode-se inferir que
consequentemente
 
É claro que nem sempre as premissas e a conclusão são precedidas por indicadores. Por exemplo, no argumento:
O Mourinho é treinador de futebol e ganha mais de 100000 euros por mês. Portanto, há treinadores de futebol que ganham mais de 100000 euros por mês.
A conclusão é precedida do indicador "Portanto", mas as premissas não têm nenhum indicador.
Por outro lado, aqueles indicadores (palavras e expressões) podem aparecer em frases sem que essas frases sejam premissas ou conclusões de argumentos. Por exemplo, se eu disser:
Depois de se separar do dono, o cão nunca mais foi o mesmo. Então, um dia ele partiu e nunca mais foi visto. Admitindo que não morreu, onde estará?
O que se segue à palavra "Então" não é conclusão de nenhum argumento, e o que segue a "Admitindo que" não é premissa, pois nem sequer tenho aqui um argumento. Por isso, embora seja útil, deves usar a informação do quadro de indicadores de premissa e de conclusão criticamente e não de forma automática.
 
Proposições e frases
 
Um argumento é um conjunto de proposições. Quer as premissas quer a conclusão de um argumento são proposições. Mas o que é uma proposição?
  Uma proposição é o pensamento que uma frase declarativa exprime literalmente.
Não deves confundir proposições com frases. Uma frase é uma entidade linguística, é a unidade gramatical mínima de sentido. Por exemplo, o conjunto de palavras "Braga é uma" não é uma frase. Mas o conjunto de palavras "Braga é uma cidade" é uma frase, pois já se apresenta com sentido gramatical.
Há vários tipos de frases: declarativas, interrogativas, imperativas e exclamativas. Mas só as frases declarativas exprimem proposições. Uma frase só exprime uma proposição quando o que ela afirma tem valor de verdade.
Por exemplo, as seguintes frases não exprimem proposições, porque não têm valor de verdade, isto é, não são verdadeiras nem falsas:
1. Que horas são?
2. Traz o livro.
3. Prometo ir contigo ao cinema.
4. Quem me dera gostar de Matemática.
 
Mas as frases seguintes exprimem proposições, porque têm valor de verdade, isto é, são verdadeiras ou falsas, ainda que, acerca de algumas, não saibamos, neste momento, se são verdadeiras ou falsas:
1. Braga é a capital de Portugal.
2. Braga é uma cidade minhota.
3. A neve é branca.
4. Há seres extraterrestres inteligentes.
A frase 1 é falsa, a 2 e a 3 são verdadeiras. E a 4? Bem, não sabemos qual é o seu valor de verdade, não sabemos se é verdadeira ou falsa, mas sabemos que tem de ser verdadeira ou falsa. Por isso, também exprime uma proposição.
Uma proposição é uma entidade abstracta, é o pensamento que uma frase declarativa exprime literalmente. Ora, um mesmo pensamento pode ser expresso por diferentes frases. Por isso, a mesma proposição pode ser expressa por diferentes frases. Por exemplo, as frases "O governo demitiu o presidente da TAP" e "O presidente da TAP foi demitido pelo governo" exprimem a mesma proposição. As frases seguintes também exprimem a mesma proposição: "A neve é branca" e "Snow is white".
 
Ambiguidade e vagueza
 
Para além de podermos ter a mesma proposição expressa por diferentes frases, também pode acontecer que a mesma frase exprima mais do que uma proposição. Neste caso dizemos que a frase é ambígua. A frase "Em cada dez minutos, um homem português pega numa mulher ao colo" é ambígua, porque exprime mais do que uma proposição: tanto pode querer dizer que existe um homem português (sempre o mesmo) que, em cada dez minutos, pega numa mulher ao colo, como pode querer dizer que, em cada dez minutos, um homem português (diferente) pega numa mulher ao colo (a sua).
Por vezes, deparamo-nos com frases que não sabemos com exactidão o que significam. São as frases vagas. Uma frase vaga é uma frase que dá origem a casos de fronteira indecidíveis. Por exemplo, "O professor de Filosofia é calvo" é uma frase vaga, porque não sabemos a partir de quantos cabelos é que podemos considerar que alguém é calvo. Quinhentos? Cem? Dez? Outro exemplo de frase vaga é o seguinte: "Muitos alunos tiveram negativa no teste de Filosofia". Muitos, mas quantos? Dez? Vinte? Em filosofia devemos evitar as frases vagas, pois, se não comunicarmos com exactidão o nosso pensamento, como é que podemos esperar que os outros nos compreendam?
 
Validade e verdade
 
A verdade é uma propriedade das proposições. A validade é uma propriedade dos argumentos. É incorrecto falar em proposições válidas. As proposições não são válidas nem inválidas. As proposições só podem ser verdadeiras ou falsas. Também é incorrecto dizer que os argumentos são verdadeiros ou que são falsos. Os argumentos não são verdadeiros nem falsos. Os argumentos dizem-se válidos ou inválidos.
Quando é que um argumento é válido? Por agora, referirei apenas a validade dedutiva. Diz-se que um argumento dedutivo é válido quando é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Repara que, para um argumento ser válido, não basta que as premissas e a conclusão sejam verdadeiras. É preciso que seja impossível que sendo as premissas verdadeiras, a conclusão seja falsa.
 
Considera o seguinte argumento:
Premissa 1: Alguns treinadores de futebol ganham mais de 100000 euros por mês.
Premissa 2: O Mourinho é um treinador de futebol.
Conclusão: Logo, o Mourinho ganha mais de 100000 euros por mês.
Neste momento (Julho de 2004), em que o Mourinho é treinador do Chelsea e os jornais nos informam que ganha muito acima de 100000 euros por mês, este argumento tem premissas verdadeiras e conclusão verdadeira e, contudo, não é válido. Não é válido, porque não é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Podemos perfeitamente imaginar uma circunstância em que o Mourinho ganhasse menos de 100000 euros por mês (por exemplo, o Mourinho como treinador de um clube do campeonato regional de futebol, a ganhar 1000 euros por mês), e, neste caso, a conclusão já seria falsa, apesar de as premissas serem verdadeiras. Portanto, o argumento é inválido.
 
Considera, agora, o seguinte argumento, anteriormente apresentado:
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Este argumento é válido, pois é impossível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Ao contrário do argumento que envolve o Mourinho, neste não podemos imaginar nenhuma circunstância em que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Podes imaginar o caso em que o João não é aluno do 11.º ano. Bem, isto significa que a conclusão é falsa, mas a premissa também é falsa.
Repara, agora, no seguinte argumento:
Premissa 1: Todos os números primos são pares.
Premissa 2: Nove é um número primo.
Conclusão: Logo, nove é um número par.
Este argumento é válido, apesar de quer as premissas quer a conclusão serem falsas. Continua a aplicar-se a noção de validade dedutiva anteriormente apresentada: é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. A validade de um argumento dedutivo depende da conexão lógica entre as premissas e a conclusão do argumento e não do valor de verdade das proposições que constituem o argumento. Como vês, a validade é uma propriedade diferente da verdade. A verdade é uma propriedade das proposições que constituem os argumentos (mas não dos argumentos) e a validade é uma propriedade dos argumentos (mas não das proposições).
Então, repara que podemos ter:
  Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
  Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão falsa;
  Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira;
  Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
  Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa;
  Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão falsa; e
  Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira.
Mas não podemos ter:
  Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa.
Como podes determinar se um argumento dedutivo é válido? Podes seguir esta regra:
Mesmo que as premissas do argumento não sejam verdadeiras, imagina que são verdadeiras. Consegues imaginar alguma circunstância em que, considerando as premissas verdadeiras, a conclusão é falsa? Se sim, então o argumento não é válido. Se não, então o argumento é válido.
Lembra-te: num argumento válido, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão não pode ser falsa.
 
Argumentos sólidos e argumentos bons
 
Em filosofia não é suficiente termos argumentos válidos, pois, como viste, podemos ter argumentos válidos com conclusão falsa (se pelo menos uma das premissas for falsa). Em filosofia pretendemos chegar a conclusões verdadeiras. Por isso, precisamos de argumentos sólidos.
  Um argumento sólido é um argumento válido com premissas verdadeiras.
Um argumento sólido não pode ter conclusão falsa, pois, por definição, é válido e tem premissas verdadeiras; ora, a validade exclui a possibilidade de se ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.
 
O seguinte argumento é válido, mas não é sólido:
Todos os minhotos são alentejanos.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são alentejanos.
Este argumento não é sólido, porque a primeira premissa é falsa (os minhotos não são alentejanos). E é porque tem uma premissa falsa que a conclusão é falsa, apesar de o argumento ser válido.
O seguinte argumento é sólido (é válido e tem premissas verdadeiras):
Todos os minhotos são portugueses.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são portugueses.
Também podemos ter argumentos sólidos deste tipo:
Sócrates era grego.
Logo, Sócrates era grego.
(É claro que me estou a referir ao Sócrates, filósofo grego e mestre de Platão, e não ao Sócrates, candidato a secretário geral do Partido Socialista. Por isso, a premissa e a conclusão são verdadeiras.)
Este argumento é sólido, porque tem premissa verdadeira e é impossível que, sendo a premissa verdadeira, a conclusão seja falsa. É sólido, mas não é um bom argumento, porque a conclusão se limita a repetir a premissa.
 
  Um argumento bom (ou forte) é um argumento válido persuasivo (persuasivo, do ponto de vista racional).
Fica agora claro por que é que o argumento "Sócrates era grego; logo, Sócrates era grego", apesar de sólido, não é um bom argumento: a razão que apresentamos a favor da conclusão não é mais plausível do que a conclusão e, por isso, o argumento não é persuasivo.
Talvez recorras a argumentos deste tipo, isto é, argumentos que não são bons (apesar de sólidos), mais vezes do que imaginas. Com certeza, já viveste situações semelhantes a esta:
— Pai, preciso de um aumento da "mesada".
— Porquê?
— Porque sim.
O que temos aqui? O seguinte argumento:
Preciso de um aumento da "mesada".
Logo, preciso de um aumento da "mesada".
Afinal, querias justificar o aumento da "mesada" (conclusão) e não conseguiste dar nenhuma razão plausível para esse aumento. Limitaste-te a dizer "Porque sim", ou seja, "Preciso de um aumento da 'mesada', porque preciso de um aumento da 'mesada'". Como vês, trata-se de um argumento muito mau, pois com um argumento deste tipo não consegues persuadir ninguém.
Mas não penses que só os argumentos em que a conclusão repete a premissa é que são maus. Um argumento é mau (ou fraco) se as premissas não forem mais plausíveis do que a conclusão. É o que acontece com o seguinte argumento:
Se a vida não faz sentido, então Deus não existe.
Mas Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.
Este argumento é válido, mas não é um bom argumento, porque as premissas não são menos discutíveis do que a conclusão.
 
Para que um argumento seja bom (ou forte), as premissas têm de ser mais plausíveis do que a conclusão, como acontece no seguinte exemplo:
Se não se aumentarem os níveis de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico, então os alunos continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Ora, não se aumentaram os níveis de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico.
Logo, os alunos continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Este argumento pode ser considerado bom (ou forte), porque, além de ser válido, tem premissas menos discutíveis do que a conclusão.
As noções de lógica que acabei de apresentar são elementares, é certo, mas, se as dominares, ajudar-te-ão a fazer um melhor trabalho na disciplina de Filosofia e, porventura, noutras.
 
CAPÍTULO 1
 
Caracterização da filosofia
 
 
1.– O que é a Filosofia?
2.– Será a Filosofia um campo de pensamento esotérico, quer dizer, estranho, misterioso, apenas reservado a algumas pessoas? Como surge o pensar filosófico?
3.– Qual a importância da história da filosofia para a Filosofia?
4.– Qual é a utilidade da Filosofia?
 
1 – O que é a Filosofia?
 
A Filosofia “é uma forma de pensar acerca de certas questões”. (O método de reflexão da Filosofia é racional e argumentativo; existem certas questões que são tipicamente filosóficas, as quais podem ser definidas como sendo aquelas cuja solução não se encontra na experiência empírica.)  
“A característica mais marcante da Filosofia é o uso de argumentos”. (Os argumentos são o núcleo ou a essência do pensar filosófico; sem argumentos filosóficos a Filosofia não poderia progredir e evoluir; sem argumentos não era possível justificar uma teoria para tentar resolver um determinado problema filosófico; sem argumentos não era possível analisar, criticar e construir novos argumentos.)
Os filósofos constroem argumentos ou “criticam argumentos ou fazem ambas as coisas”. (Fazer Filosofia é precisamente o criticar argumentos, com vista ao aperfeiçoamento destes e respectiva melhor adequação da resposta ao problema colocado; o filósofo não apenas critica, geralmente também constrói novos argumentos).
Os filósofos “analisam e clarificam conceitos”. (Ao analisarem e criticarem os argumentos, os filósofos também aperfeiçoam o sentido de alguns conceitos e a relação entre eles, como, por exemplo, os conceitos de «bem», «mal», «mente», «corpo», «felicidade», «amizade», «número», «inferência», «Deus».)
 
 
2 – O  que é  o método da Filosofia?
 
O método da filosofia não é empírico, distinguindo-se do método científico ou experimental.
(1 – o conhecimento obtido pelo método científico é testado pela experiência, o conhecimento obtido pelo método filosófico não é pautado pela experiência; 2 – a solução ou resposta ao problema filosófico indagado pelo método da filosofia não advém ou resulta da experiência empírica; 3 – o método da filosofia não é empírico ou a posteriori, mas um método conceptual ou a priori.)
 
O método filosófico é argumentativo, lógico, consequente e crítico.
(1 – fazer filosofia não é um simples opinar sobre os problemas filosóficos; 2 – fazer filosofia é seguir um raciocínio lógico e consequente a partir dos argumentos, sendo consequente ter a capacidade de aceitar as consequências daquilo que se está a defender, ser-se responsável por aquilo que se afirma; 3 – a argumentação possibilita a discussão e justificação das nossas respostas; 4 – a argumentação é o núcleo da filosofia, daí a filosofia se afirmar essencialmente como uma atitude crítica; 5 – fazer filosofia é tomar uma posição crítica em relação aos argumentos estudados ou analisados, é verificar de forma imparcial se esses argumentos são bons ou maus; 6 – fazer filosofia é cultivar a autonomia do pensamento critico, pensar por si mesmo.)
 
O método da filosofia permite a discussão dos problemas, teorias e argumentos apresentados pelos filósofos.
(1 – os problemas filosóficos são a origem ou a raiz do próprio filosofar (sem os problemas não havia filosofia; 2 – as teorias filosóficas são uma tentativa de resposta aos problemas; 3 – os argumentos servem para procurar justificar as teorias; 4 – o método filosófico difere da simples opinião; 5 – o método da filosofia possibilita um progresso do método dos debates espontâneos utilizado pela maioria das pessoas.)
 
O método filosófico analisa e clarifica conceitos tipicamente filosóficos. Exemplos: bem, mente, felicidade, corpo, número, inferência, Deus,...
(1 – para além da procura de resposta aos problemas filosóficos, o método filosófico possibilita uma análise e clarificação dos conceitos filosóficos.)  
 
A natureza do método filosófico possibilita o progresso da própria filosofia.
(1 – de cada vez que surge uma nova teoria com novos argumentos para responder a um determinado problema filosófico, existe progresso em filosofia; 2 – de cada vez que se critica uma determinada teoria e os seus argumentos e se constroem novos argumentos a partir daqueles, existe progresso em filosofia [daí ser importante estudar a história da filosofia]; 3 – o progresso não é a filosofia encontrar a solução definitiva para os problemas que lhe são sugeridos, mas eliminar teorias e argumentos e construir outros mais capazes para responder aos problemas filosóficos; 4 – a filosofia possibilita um melhor conhecimento do mundo e de si mesmo; 5 – a filosofia permite o progresso das instituições.)
 
3 – Será a filosofia um campo de pensamento esotérico, quer dizer, estranho, misterioso, apenas reservado a algumas pessoas? Como surge o pensar filosófico?
 
Não, o pensar filosófico não é um campo de pensamento estranho ou misterioso. (Não é verdade que apenas algumas pessoas possam pensar filosoficamente; toda e qualquer pessoa já pensou e pode pensar filosoficamente, desde que já tenha procurado justificar ou se tenha esforçado mentalmente para encontrar uma resposta para um determinado problema filosófico; a grande diferença reside em “como pensar” acerca de um problema filosófico, sendo neste “como pensar” que se encontra um dos grandes contributos da filosofia; a maioria das pessoas não sabe organizar uma linha de raciocínio lógica e coerente para responder a um problema filosófico.)
O pensar filosófico emerge naturalmente das circunstâncias humanas. (Podemos afirmar que existe pensar filosófico desde que existe a humanidade; o Homem, pela sua natural predisposição para o saber, sempre se questionou acerca de si próprio, dos outros e de tudo aquilo que o rodeia; foi neste sentido que o Homem sempre colocou a si próprio questões filosóficas, como, por exemplo, “Como é que os seres da minha espécie surgiram à face da Terra?”, o mesmo que dizer actualmente “Como surgiu o ser humano?”, “Como surgiu toda esta extensão de terra na qual me encontro?”, o mesmo que dizer agora “Como surgiu o Universo?”, e por aí em diante; o pensar filosófico surge a partir do momento em que eu começo a questionar as coisas que me rodeiam e me apercebo de que não posso encontrar na experimentação a solução ou resposta para as mesmas, quer dizer, tocando, cheirando ou simplesmente observando-as, entre outras modalidades possíveis de experiência empírica).
Quer isso dizer que a maior parte das pessoas pensa, ou pelo menos já pensou, em alguma das questões filosóficas. (A maior parte das pessoas, sendo provavelmente melhor dizer todas as pessoas, já pensou num problema filosófico; ao pensar num problema filosófico, essas pessoas já procuraram obter uma resposta para ele; neste sentido, todos nós podemos, de certa maneira, ser considerados “filósofos”; mas pensar sobre um problema filosófico não é propor uma resposta e dizer que esta é a única que pode ser verdadeira, devendo antes aceitar-se a crítica e outra possível justificação ao mesmo problema com vista ao seu melhoramento, caso contrário não se está a fazer filosofia.)
 
4 – Qual a importância da história da filosofia para a filosofia?
 
Sem o conhecimento dos argumentos e dos erros dos filósofos anteriores não poderia haver avanço e progresso na filosofia. (Os problemas que os filósofos desde Sócrates procuraram resolver são ainda hoje os mesmos em relação aos quais os filósofos procuram obter uma resposta; mas, sem o conhecimento dos argumentos dos filósofos anteriores, não poderia haver progresso na filosofia; a filosofia progride através de um aperfeiçoamento dos argumentos na resposta ao problema proposto, no sentido em que os argumentos X respondem melhor ao problema do que os argumentos Y.)
Sem esse conhecimento, a filosofia arriscava-se a ser uma repetição de erros passados.
Muitos filósofos desenvolvem as suas próprias teorias a partir dos erros dos filósofos anteriores. (As teorias são uma tentativa de resposta ao problema filosófico; muitas teorias são aperfeiçoadas a partir de argumentos de filósofos anteriores; percebe-se, assim, a importância que a história da filosofia adquire para a filosofia; no entanto, história da filosofia e filosofia não são a mesma coisa; a história da filosofia limita-se a enunciar aquilo que os filósofos afirmaram acerca de determinados problemas, dizendo que o filósofo x disse y; a filosofia é a análise e crítica daquilo que os filósofos afirmaram e, se possível, a construção de novos argumentos a partir dessa crítica argumentativa.)
 
5 – Qual é a utilidade da filosofia?
 
Os filósofos “examinam crenças que quase toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo.” (Este é sem dúvida um dos grandes contributos da filosofia para a humanidade; a maior parte das pessoas vive “enredada” em crenças e preconceitos que reconhece convictamente serem verdadeiros e sólidos, mas não admite a sua análise e discussão crítica, o que é um erro muito grave e com sérias consequências na vida dessa pessoa e na vida de todos nós; não aceitar a crítica das suas ideias e crenças é viver a vida sem orientação, como um barco sem vela que se lança ao mar revoltado, sabendo nós que o mais certo é ficar destruído com a força das ondas; esta destruição corresponde à ruína da própria vida, porque se orienta apenas por aquilo que os outros dizem (como as ondas do mar em relação ao barco), sem pensar por um pouco que seja se isso que lhe dizem é o mais correcto; não questionar as suas ideias e preconceitos reflecte-se negativamente na sociedade, concretamente em más decisões, em más leis, em más instituições e em maus hábitos sociais e costumes; aceitar as críticas e repensar as suas ideias é estar a contribuir para a construção de um mundo melhor, mais civilizado, mais justo e mais unido, panorama que de todo não se verifica no mundo dos nossos dias).
 
A filosofia “desenvolve uma capacidade para argumentar de forma coerente sobre um vasto leque de temas”. (A filosofia ajuda a saber responder a problemas das mais variadas áreas, como a Filosofia da Religião, a Ética, a Estética, a Filosofia do Conhecimento ou Epistemologia, a Filosofia Política, a Filosofia do Direito, a Ontologia ou Metafísica, entre outras; mas a filosofia não ajuda apenas a saber responder e a justificar problemas filosóficos, ajuda também a argumentar sobre qualquer outro problema de outra área que se nos depare, como “o direito, a informática, a consultoria de gestão, o funcionamento público, o jornalismo, o cinema”, e por aí em diante; esta capacidade vem a revelar-se muito frutuosa e útil para o nosso quotidiano, porque nos permite apresentar uma justificação lógica e coerente sobre qualquer problema que nos seja colocado por outra pessoa, seja um amigo, um familiar ou um estranho; assim, a pessoa que se interesse por filosofia fica capacitada com determinados instrumentos lógicos de raciocínio que lhe permitem justificar outros problemas para além dos problemas tipicamente filosóficos).
 
É uma forma de questionar/desafiar as nossas crenças e preconceitos.
(1 – as crenças e preconceitos condicionam a forma como encaramos o mundo e como vivemos a nossa vida; 2 – muitas das vezes, as nossas ideias e crenças não são as mais correctas, aquelas nas quais depositávamos toda a nossa confiança; 3 – se as pudermos questionar e criticar, mais facilmente nos aperceberemos dos nossos erros, quer ao nível da nossa conduta quer ao nível do nosso raciocínio; 4 – ao alterarmos as nossas crenças e convicções, alteramos o nosso modo de vida.)
 
A filosofia ajuda-nos a clarificar o nosso raciocínio.
(1 – a filosofia ajuda-nos a pensar melhor, quer em relação às questões filosóficas quer em relação aos problemas das outras áreas; 2 – a filosofia ajuda-nos a decidir melhor acerca dos problemas com que deparamos).
 
Transmite-nos a capacidade para argumentar e discutir sobre problemas filosóficos e não filosóficos.
(1 – quem for capaz de discutir e argumentar de forma rigorosa as ideias filosóficas, facilmente saberá discutir qualquer outra ideia ou assunto; 2 – a filosofia torna-se assim útil para a nossa vida pública, ao ajudar-nos a pensar melhor acerca dos problemas do nosso quotidiano; 3 – quem souber argumentar bem, tem maiores probabilidades de tomar melhores decisões, as quais podem afectar decisivamente a nossa vida).
 
A filosofia possibilita uma maior autonomia de pensamento.
(1 – a filosofia ajuda o indivíduo a pensar por si mesmo, a decidir perante situações problemáticas do nosso quotidiano; 2 – confere uma maior capacidade crítica ao indivíduo, uma maior liberdade para defender as suas ideias, contribuindo para uma melhoria da sociedade e do mundo.)
 
A filosofia confere-nos a capacidade de controlarmos e direccionarmos as nossas acções.
(1 – a filosofia ajuda-nos a reflectir sobre a maneira como praticamos determinada acção, possibilitando melhorar a realização dessa mesma acção).
 
A filosofia estimula o pensar crítico, fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade e de uma cultura mais livre e civilizada.
 
A filosofia permite um melhor conhecimento de nós próprios e do mundo.
 
A filosofia serve para uma melhor justificação das instituições nacionais e internacionais.
(1 – a filosofia permite realizar uma análise crítica das instituições, de modo a que elas justifiquem a sua razão de ser, contribuindo decisivamente para o seu melhoramento.)  
 
6 – Qual é o campo da filosofia?
 
A filosofia é uma actividade dialogante ou discursiva (1 – dialoga-se ou discute-se para quê? Para chegar à verdade das coisas.)
 
Filosofar é uma actividade natural, despertada pela nossa curiosidade, mas nem toda a reflexão natural é filosófica.
(1.º fazer filosofia não é uma actividade esotérica, secreta, misteriosa, reservada apenas a alguns; 2.º fazer filosofia é uma necessidade inerente ao ser humano pela sua própria disposição ou desejo de saber, pela sua natural predisposição para pensar; 3.º a necessidade humana pelo filosofar pode ser despertada pelo nosso contacto com o mundo, com os outros ou pela simples leitura de um livro; 4.º fazer filosofia é uma actividade espontânea; 5.º todos nós podemos, de certa forma, ser considerados filósofos por nos termos pelo menos uma vez questionado sobre um determinado problema filosófico; 6.º – a filosofia é inevitável, porque, a partir do momento em que apresentamos justificações para as nossas ideias mais básicas, já estamos a fazer filosofia.)  
 
É uma certa forma de pensar, utiliza um método racional.  
(1.º a filosofia possui um método de raciocínio; 2.º o método filosófico possibilita a análise e discussão dos problemas filosóficos.)
 
A filosofia reflecte acerca de problemas ou questões filosóficas.
(1.º as questões filosóficas são a fonte ou origem de todo o filosofar; 2.º sem os problemas filosóficos não haveria filosofia; 3.º se não existissem problemas filosóficos, o ser humano não teria dúvidas (não deixando todavia de ter as dúvidas práticas, tal como as tem um animal, por exemplo o gato); 4.º existem questões às quais a humanidade ainda não conseguiu dar uma resposta plenamente satisfatória; 5.º essas questões são tipicamente filosóficas, porque são um questionamento acerca dos nossos princípios.)
 
As respostas aos problemas filosóficos são as teorias filosóficas.
(1.º a teoria filosófica é a enunciação de um determinado princípio que, através de um certo conjunto de argumentos, procura dar resposta a um ou mais problemas filosóficos.)
 
A justificação das teorias é dada pelos argumentos filosóficos.
(1.º o argumento é um conjunto de proposições, constituído por pelo menos uma premissa e uma conclusão; 2.º a premissa num argumento é o que está a justificar a conclusão.)
 
 
Áreas da Filosofia/Problemas da Filosofia
 
Aquilo que caracteriza um problema filosófico e o distingue dos problemas científicos é o facto da solução para o problema filosófico não se encontrar na experiência empírica, ou seja, nada existe no campo experiencial que nos permita resolver o problema.
No entanto, existe certa informação empírica que se pode tornar relevante para a resolução do problema, pelo menos para servir de suporte ou apoio à nossa justificação. Ex: não podemos discutir a filosofia da arte se não tivermos um mínimo de conhecimentos acerca de arte.  
 
Filosofia da Religião: Estudo da natureza e do objecto da fé religiosa.
O que é a religião? Será que Deus existe? Como compatibilizar a existência de Deus com o mal existente no mundo? Se Deus não existir, será que deixa de haver uma moral que oriente a conduta humana? Até que ponto a fé religiosa deve estar ao abrigo da discussão?
 
Ética ou Filosofia Moral: Estudo dos princípios que orientam a acção humana.
Será que existe um padrão moral comum a todos os seres humanos? Ou todas as normas morais diferem consoante as diversas culturas e grupos humanos? Por que normas morais devemos orientar as nossas acções? O que é incorrecto e o que é correcto fazer? Será a pena de morte moralmente aceitável? E o aborto? E a eutanásia? Será que somos livres?
 
Estética: Estudo dos princípios que sustentam a nossa avaliação da obra de arte.
O que é a arte? Como é que um determinado objecto se torna artístico? Serão as propriedades de um determinado objecto a condição necessária e suficiente para o constituir como obra de arte? Será a sensibilidade de quem contempla o objecto a condição que lhe permite tornar-se uma obra de arte? Será o local onde um objecto se encontra que o constitui como obra de arte? Qual é a finalidade da arte?
 
Filosofia do Direito: Estudo da natureza e princípios que legitimam a aplicação do Direito.
O que é o Direito? Será o Direito a expressão da vontade comum? Pode o Direito ser considerado a concretização da ideia de Justiça? Será o Direito um instrumento de poder de alguns? Será que existe justificação para a punição ou castigo? Quais são as razões? Vingança? Simples cumprimento da regra? Protecção da sociedade? Recuperação do faltoso?
 
Filosofia Política: Estudo dos princípios fundamentais do Estado.
O que é o Estado? Será o Estado um bem necessário? Será um mal menor? Quais os limites do poder do Estado? Em que condições é legítimo um Estado intervir nos assuntos internos de outro Estado? Até que ponto é legítimo o Estado restringir a liberdade das pessoas?
 
Filosofia do Conhecimento ou Epistemologia: Estudo da origem, natureza e extensão do conhecimento.
O que é a verdade? Existe verdade na política, na religião e na moral ou apenas existe verdade nas ciências? Mas será que mesmo nas ciências existe verdade? Será a experiência a única fonte de conhecimento? Qual é a relação entre a nossa mente e o nosso corpo?
 
Ontologia e Metafísica: Estudo das questões fundamentais acerca da natureza da realidade.
O que é a realidade? São uma pedra e um sonho igualmente reais? Quais os critérios para se distinguir entre a aparência e a realidade?
 
Nota:
Estes são apenas alguns dos problemas a que a filosofia procura dar resposta. Outras áreas possíveis da filosofia não mencionadas são por exemplo: a filosofia da ciência, a filosofia da matemática, a filosofia da história, a filosofia da educação, a lógica, a bioética,...
Identificado o problema filosófico a que um determinado autor (filósofo) procura dar resposta, o aluno deve ser capaz de identificar a teoria defendida pelo autor como resposta ao problema proposto. O aluno deve ser capaz, em seguida, de identificar os argumentos mencionados pelo autor como justificação ou defesa da sua teoria.  
 
EXERCÍCIOS
 
1. A filosofia é:
a)    Uma actividade secreta, reservada apenas a alguns.
b)    Uma actividade que não é válida para quem apenas deseja saber.
c)    Uma actividade despertada pela nossa curiosidade.
 
R: A filosofia é uma actividade despertada pela nossa curiosidade.
 
 
2. Quais os três elementos centrais sem os quais não era possível fazer filosofia?
a) Problemas, teorias e argumentos.
b) Proposições, argumentos e teorias.
c) Premissas, teorias e argumentos.
 
R: Os três elementos sem os quais não era possível fazer filosofia são os problemas, as teorias e os argumentos.
 
 
3. Dado um determinado problema filosófico, qual é a função das teorias e dos argumentos?
 
R: As teorias são uma tentativa de resposta ao problema colocado e a função dos argumentos é a de procurar justificar as teorias.
 
 
4. Refira as principais características que definem a filosofia.    
 
R: A filosofia é uma actividade argumentativa e crítica que procura responder a um conjunto determinado de problemas.
A filosofia distingue-se da ciência relativamente ao método de investigação: a ciência encontra a resposta para os seus problemas na experiência e a filosofia procura encontrar respostas para os seus problemas a partir da argumentação e discussão crítica. A filosofia progride com base nesta argumentação crítica.
Os três elementos centrais sem os quais não era possível a filosofia são os problemas, as teorias e os argumentos.
Os problemas são a origem de todo o filosofar. As teorias são uma tentativa de resposta aos problemas. Os argumentos procuram justificar as teorias.
 
 
5. Enuncie três ou quatro áreas da filosofia e pelo menos dois problemas a que essa área dedica o seu estudo. Verifique agora se já alguma vez tinha pensado em algum desses problemas.
 
R: Filosofia da Religião: Será que Deus existe? Será que é possível compatibilizar o mal que existe no mundo com a existência de Deus?
Filosofia Política: Quais os limites do poder do Estado? Será que é legítima a desobediência civil?
Filosofia da Arte ou Estética: O que é a arte? Quando é que um determinado objecto pode ser considerado arte?
 
 
6. Em cada grupo de três problemas encontra-se um problema filosófico. Consegue identificá-lo?
 
6.1.     Como surge o arco-íris?
Quantos livros existem na Torre do Tombo?
Será que Deus existe?
 
R: O problema filosófico é: “Será que Deus existe?”.
 
 
6.2. Será possível encontrar uma cura para a SIDA?
Será que sou livre?
Por que razão a cor exterior de Marte é o vermelho?
 
R: O problema filosófico é: “Será que sou livre?”.
 
6.3. O que distingue um acto justo ou moral de um acto injusto ou imoral?
Como é possível observarmos o Sol e a Lua? (sabendo-se que estes corpos celestes se encontram a milhares de quilómetros de distância da Terra).
Por que razão a água não se mistura com o azeite?
 
R: O problema filosófico é: “O que distingue um acto justo de um acto injusto?”.
 
6.4. Por que razão o íman tem a capacidade de atrair certos corpos?
De onde e como surge o vento?
Como devemos agir?
 
R: O problema filosófico é: “Como devemos agir?”.
 
 
7. Qual a principal característica que permite identificar um problema filosófico?
 
R: A principal característica que permite identificar um problema filosófico é a seguinte: a solução para um problema filosófico não se encontra na experiência empírica.
 
 
8. Qual a principal diferença entre o método da filosofia e o método científico?
 
R: O conhecimento pelo método científico obtém-se a partir da experiência, o conhecimento obtido pelo método filosófico não é todo ele derivado da experiência (é a discussão argumentativa e crítica que proporciona o progresso à filosofia).
 
 
9. «O pensamento filosófico não é consequente.» Concorda? Justifique. Dê um exemplo apresentando a defesa de uma determinada teoria, a partir da qual possa verificar que ao defender uma certa teoria não pode ter certo tipo de afirmações, sob pena de entrarem em contradição com aquilo que defende.
 
R: Não concordo, o pensamento filosófico é consequente. Ser consequente significa ter de aceitar as consequências daquilo que se afirma ou defende. Ao tentar responder a um determinado problema, o filósofo tem de aceitar as consequências daquilo que defende.
Por exemplo, quem defende que “Deus existe”, ao tentar responder ao problema da existência de Deus, não pode afirmar que o surgimento do mundo foi o resultado do BIG BANG ou que não é crente, sob pena de se contradizer.
 
 
10. Será que existe alguma diferença entre o método de discussão filosófica e o simples opinar ou gritaria? Justifique.
 
R: Existem diferenças entre o método de discussão filosófica e a simples opinião ou gritaria. O método filosófico é argumentativo, o que significa que toda a posição a ser defendida tem de ser justificada mediante premissas. O opinar são afirmações injustificadas e inconsequentes. O método filosófico permite a discussão crítica e racional daquilo que se defende. A gritaria torna-se, na maior parte das vezes, uma discussão emocional, na qual, não se avaliam razões, mas sentimentos.  
 
 
11. Por que razão os argumentos são importantes em filosofia?
 
R: Os argumentos são importantes em filosofia porque nos permitem discutir criticamente as posições dos filósofos sobre os vários problemas e nos ajudam também a pensar correctamente.
 
 
12. «A atitude crítica é apenas dizer mal dos outros». Concorda? Justifique.
 
R: Não concordo, a atitude crítica não é apenas dizer mal dos outros. A atitude crítica é avaliar criticamente as razões apresentadas pelo filósofo para justificar uma determinada teoria. Em filosofia não existem posições dogmáticas, não existem filósofos detentores da verdade, mas apenas respostas que procuram obter a verdade acerca dos vários problemas.
 
 
13. Será que se pode dizer que existe progresso em Filosofia? Justifique.
 
R: Sim, existe progresso em filosofia. Se não existisse progresso em filosofia, não faria sentido discutirmos os argumentos apresentados pelos vários filósofos, não faria sentido construirmos novos argumentos que procuram justificar certas teorias e responder a certos problemas. O progresso em filosofia resulta da análise crítica dos argumentos apresentados pelos filósofos, para, a partir dessa mesma análise, podermos construir argumentos melhores, argumentos que melhor procurem responder aos problemas levantados.  
 
 
14. Por que razão se torna importante discutir as nossas crenças e preconceitos? Será que a filosofia e o seu método podem contribuir para facilitar essa discussão? Justifique.  
 
R: É importante discutir as nossas crenças e preconceitos, para que possamos avaliar a solidez das nossas ideias mais básicas e, também, para que estejamos predispostos a aceitar as críticas dos outros e as suas próprias ideias. A filosofia e o seu método podem contribuir para facilitar a discussão das nossas crenças e preconceitos. A argumentação crítica própria do método filosófico possibilita e facilita um questionamento do indivíduo acerca das suas ideias e crenças com a abertura ao debate, obrigando o indivíduo a defender determinadas posições e a reflectir sobre elas.  
 
 
15. Terá a filosofia alguma utilidade no nosso quotidiano? Justifique.
 
R: A filosofia tem utilidade no nosso quotidiano. A problematização (questionamento) e argumentação crítica da filosofia surge como um desafio às nossas crenças e preconceitos, possibilitando uma autocrítica acerca daquilo em que pensamos. Neste sentido, ajuda-nos a clarificar algumas das nossas ideias e a dar-lhes solidez. A argumentação própria da filosofia ajuda-nos a pensar melhor, a argumentar sobre qualquer problema (não necessariamente filosófico) e a ter uma maior facilidade em defender as nossas ideias.  
 
 
16. Qual é a utilidade da filosofia para a nossa vida futura?
 
R: A utilidade da filosofia para a nossa vida futura é a de nos possibilitar tomar melhores decisões, dado que nos ajuda a pensar melhor. Ao permitir-nos tomar melhores decisões, permite-nos agir melhor. A filosofia torna-nos mais sensíveis aos problemas do quotidiano. A filosofia, ao estimular o nosso pensar crítico, contribui para a promoção de uma sociedade mais livre e civilizada.
 
 
Capítulo 2
 
Os instrumentos do trabalho filosófico
 
I – Definição de Proposição
 
A proposição é todo o pensamento que possui valor de verdade.
As proposições distinguem-se das frases no sentido em que nem todas as frases são proposições. Apenas as frases declarativas são proposições, porque apenas essas possuem valor de verdade, podem ser verdadeiras ou falsas. A proposição é toda a afirmação que apenas pode ser verdadeira ou falsa, não existe o meio termo “não sei”, “talvez”, “provavelmente”,...
 
Proposições de Qualidade Negativa:
    Não há cálculos em Física.
    Sócrates não escreveu qualquer texto.
    A casa não ficou molhada.
 
II – Proposições da Forma “A e B” (conjunções)
 
Basta uma das proposições que constitui a conjunção ser falsa para que a conjunção seja ela mesma falsa.  
Uma proposição da forma “A e B” é verdadeira, se ambas as proposições que constituem a conjunção forem verdadeiras.
Para refutar uma proposição da forma “A e B”, é suficiente provar que uma das proposições que constitui a conjunção é falsa.
Exemplos: Fui ao cinema e depois fui à livraria.
Deus existe, mas a vida não tem sentido. (Deus existe e a vida não tem sentido.)
O Estado é necessário, apesar de algumas vezes abusar do seu poder. (O Estado é necessário e o Estado abusa por vezes do seu poder.)
 
III – Proposições da Forma “A ou B” (disjunções)
 
Uma proposição da forma “A ou B” é falsa, se ambas as proposições simples que a constituem forem falsas.  
Uma disjunção é verdadeira, se, pelo menos, uma das proposições simples que a constitui for verdadeira.
Uma disjunção não implica necessariamente uma relação de exclusão mútua entre as suas proposições simples. Neste sentido, distinguem-se as disjunções exclusivas das disjunções inclusivas. As disjunções exclusivas implicam exclusão mútua entre as suas proposições mais simples, as disjunções inclusivas não implicam exclusão mútua entre as proposições simples. No entanto, sempre que falarmos de disjunções, estamos apenas a referir-nos às disjunções exclusivas.
 
Exemplos: Disjunção inclusiva:
            O filósofo progride pela reflexão ou pelo debate.
            Disjunção exclusiva:
            Sócrates é ateniense ou é grego.
            Vamos ao cinema ou vamos à Biblioteca.
            
IV – Proposições Condicionais (Se A, então B)
 
Numa proposição condicional, chama-se antecedente à primeira proposição simples e consequente à segunda proposição simples.
Para se refutar uma proposição condicional, tem de afirmar-se o seu antecedente e negar o seu consequente.
Uma proposição condicional é sempre verdadeira, excepto no caso da afirmação do antecedente e negação do consequente.
    Ex.: Se sou livre, posso fazer tudo o que quiser.
                   Refutar a proposição condicional anterior:
                   Se sou livre, não posso fazer tudo o que quiser.
  
A inversa da condicional (Se B, então A) não tem de ser necessariamente verdadeira.
    Ex.: Se Sócrates é ateniense, então é grego. (É verdadeira.)
                  Se Sócrates é grego, então é ateniense. (É falsa, porque, pelo facto de se ser grego, não se tem de ser necessariamente ateniense.)
    Nota: Sócrates (470/469? – 399 a. C.) foi uma das figuras mais importantes (se não mesmo a mais importante) da história da filosofia. Não publicou qualquer obra escrita, dedicando-se a questionar os seus concidadãos atenienses acerca dos mais variados problemas filosóficos. O seu discípulo mais importante foi Platão, que recuperou muitos dos diálogos orais que o Mestre mantinha com os concidadãos, passando-os à escrita, tendo nós tido a felicidade de a maior parte deles ter chegado aos nossos dias. Alguns autores consideram que a filosofia começou precisamente com Sócrates.  
 
V – Proposições Universais
 
As proposições universais são proposições que exprimem uma verdade para todos os casos de uma dada espécie.
Exemplos: Todos os políticos são honestos.
            As pessoas são trabalhadoras e competentes.
            Nenhum ser humano sabe voar.
O seu enunciado aplica-se a todos os casos existentes de uma dada espécie.
-    Proposição Universal Afirmativa: “Todo...”
-    Proposição Universal Negativa: “Nenhum...”
Para refutar uma proposição universal é suficiente apresentar um caso (particular) em que a proposição não se verifica.
Para negar uma proposição universal afirmativa tenho de afirmar (ou provar) a sua particular negativa (da mesma forma que para negar uma proposição particular negativa tenho de provar a sua universal afirmativa).
Para negar uma proposição universal negativa tenho de afirmar (ou provar) a sua particular afirmativa (da mesma forma que para negar uma proposição particular afirmativa tenho de provar a sua universal negativa).  
 
Refutação de proposições universais:
“Todo... é ”    “Algum não é...”
“Nenhum é...”    “Algum é...”
 
Proposição Universal Afirmativa (A): “Todo o S é P”.
Proposição Universal Negativa (E): “Nenhum S é P”.
Proposição Particular Afirmativa (I): “Algum S é P”.
Proposição Particular Negativa (O): “Algum S não é P”.
 
As proposições (A) e (O) são contraditórias: são a negação uma da outra.
As proposições (E) e (I) são contraditórias: são a negação uma da outra.
 
Uma proposição ser a contradição da outra significa que se uma for verdadeira a outra será falsa.
 
 
Qual a importância dos argumentos em filosofia?
 
Já sabe que os filósofos discutem problemas fundamentais e tentam encontrar respostas. As respostas têm o nome de teses ou teorias. As teses são afirmações acompanhadas de razões para as aceitarmos. A essas razões damos o nome de argumentos.
Os argumentos são um dos elementos centrais da actividade a que chamamos filosofia. Sem eles as respostas aos problemas da filosofia não passariam de simples opiniões. Estudar filosofia é, em parte, analisar, discutir e avaliar os argumentos que os filósofos usam para defender as suas teorias.
 
A Noção de Argumento.
 
Ao filosofar tentamos provar que certas ideias são verdadeiras, isto é, tentamos apresentar razões que justifiquem as teses ou teorias que apresentamos. A filosofia não é uma mera especulação mas a tentativa de defender com boas razões ou provas ideias que apresentamos. A argumentação filosófica consiste em procurar a verdade apoiando-se no raciocínio lógico. Sem este não há filosofia mas somente especulação. Defende-se uma tese ou ideia apresentando argumentos, isto é, razões para aceitar a tese defendida. Os argumentos têm também o nome de raciocínios ou inferências.
 
Exemplificando:
Se Deus existe então a vida faz sentido
Deus existe
Logo, a vida faz sentido.
Que tese ou ideia se defende? A tese de que a vida faz sentido. A última proposição deste argumento é a conclusão, aparecendo precedida pelo termo ‘Logo’.A conclusão é a tese que se pretende provar. As duas outras proposições são as razões que se apresentam para justificar a tese ou conclusão. Têm o nome de premissas do argumento.
Um argumento é um conjunto de proposições em que uma delas é defendida pelas outras. A proposição defendida – a tese – tem o nome de conclusão. A proposição ou proposições que a defendem são as premissas.
 
 
Em esquema:
     
 
     
 
 
Identificar e Clarificar Argumentos: Indicadores de Premissa, Indicadores de Conclusão e Premissas Omitidas
 
O primeiro passo na análise de argumentos será, claro, o de identificar os argumentos. Face a um conjunto de enunciados, seja um texto escrito seja um discurso oral, perguntamos em primeiro lugar se ele contém uma conclusão. Se há argumento, há conclusão; se há conclusão, há argumento. Premissas são proposições que num argumento são usadas para defender uma conclusão. A conclusão é a proposição que é defendida mediante outras proposições a que chamamos premissas.
Só as proposições podem constituir premissas. Frases sem valor de verdade não podem ser premissas de argumentos.
A pergunta pela conclusão pode ser feita de várias maneiras: há uma afirmação que esteja a ser defendida? As afirmações destinam-se a convencer alguém de alguma coisa? Há afirmações que se destinam a apoiar outra? Qual?
 
Há argumentos fáceis de identificar. Por exemplo:
Sabemos que se a inflação baixa, o consumo aumenta. Dado que a inflação está a baixar, podemos concluir que o consumo vai aumentar.
Clarificamos o argumento reconstruindo-o na seguinte forma padronizada: apresentamos primeiro as premissas, uma em cada linha. A conclusão surge no fim:
Se a inflação desce, então o consumo aumenta.
A inflação está a baixar.
Logo, o consumo vai aumentar.
 
 Indicações para encontrar a conclusão de um argumento
1 – Procure saber qual o tema e que posição o autor toma acerca dele.
2 – Pergunte o que está o autor a tentar provar.
3 – Olhe para o início e para o fim do texto. A conclusão encontra-se muitas vezes (mas não sempre) em algum desses lugares.
4 – Tente colocar a palavra “portanto” antes de uma das proposições e verifica se é adequado. Se for, é provável que tenhas encontrado a conclusão.
 
A identificação das premissas e da conclusão foi facilitada pelas expressões “sabemos que…” e “dado que…”, que são indicadores de premissas, e pela expressão “podemos concluir…”, que é um indicador de conclusão. A consulta dos quadros seguintes ajudará a clarificar argumentos, apesar de muitas vezes os indicadores serem omitidos.
 
Indicadores de conclusão
 
 
 
 
Normalmente a proposição que se segue a um destes indicadores é a conclusão.
 
Indicadores de premissa
 
  
 
 
A)    Dê atenção ao seguinte argumento:
 
Todos os crimes são moralmente inadmissíveis e dado que o aborto é um crime então o aborto é moralmente inadmissível.
Faça agora as seguintes perguntas: Que tese ou conclusão se pretende que aceitemos? Que razão ou razões são apresentadas em defesa da tese ou conclusão?
O indicador dado que indica-nos que a proposição O aborto é um crime é uma premissa, ou seja, uma das razões apresentadas para justificar a conclusão. O aborto por ser um crime faz parte das coisas moralmente inadmissíveis. Todos os crimes são moralmente inadmissíveis é a outra premissa. A conclusão será O aborto é moralmente inadmissível. Repare que não se pretende provar que todos os crimes são moralmente inadmissíveis. Isso é assumido como razão (premissa) para provar que não se pode admitir o aborto. Os argumentos são importantes em filosofia porque nos permitem discutir criticamente as posições dos filósofos acerca dos vários problemas e ajudam-nos igualmente a pensar correctamente.
      
    B) Considere outro argumento:
 
Deves-me 50 euros. Com efeito, emprestei-te 20 euros sábado, 30 euros no domingo e ainda não me pagaste.
O que pretende provar quem argumenta? È claro que pretende provar que alguém lhe deve dinheiro. Como justifica essa tese? Dizendo que emprestou 50 euros e ainda não lhe foram devolvidos. Podemos reconstruir este simples argumento da seguinte forma:
Emprestei-te 50 euros no sábado e no domingo.
Ainda não devolveste nenhum do dinheiro emprestado.
Logo, deves-me 50 euros.
 
Detectar premissas omitidas é uma parte importante da análise de argumentos.
 
Em muitos argumentos não estão explicitamente presentes todas as razões ou premissas que visam apoiar certa conclusão. Aos argumentos em que uma ou mais premissas não foram explicitamente apresentadas dá-se o nome de entinemas.
 
C) Dê atenção ao argumento seguinte:
 
Dado que a baleia vive no mar, a baleia é peixe.
Não temos indicador de conclusão, mas o argumento é claro:
 
A baleia vive no mar.
Logo, a baleia é peixe.
 
O argumento é este. No entanto, podemos ainda perguntar como se passou da premissa à conclusão. A conclusão (errada) parece ser o reflexo de uma crença errada que o argumentador guardou para si. Qual será? Obtemos, talvez, o seguinte:
 
Tudo o que vive no mar é peixe. (premissa omitida)
A baleia vive no mar.
Logo, a baleia é peixe.
 
D)Finalmente um argumento em que não temos indicadores nem de conclusão nem de premissa e em que uma das premissas não está explicitamente presente:
 
A pena de morte é inaceitável. Matar um ser humano só é aceitável se não houver alternativa moralmente válida.
Desta vez não temos a ajuda de indicadores. Temos duas proposições. É preciso cuidado na interpretação da segunda. Ela diz que só há um caso em que é válido matar um ser humano: no caso em que não há alternativa moralmente válida. Diz-nos que, se houver alternativa, não é justo matar.
Qual das duas proposições será a conclusão? Perguntamos se é mais natural apresentar a primeira para justificar a segunda ou o contrário. Vemos que a primeira é a conclusão.
Como é que o argumentador passou da premissa para a conclusão de que a pena de morte é inaceitável? Por acreditar que há sempre alternativa moralmente legítima à pena de morte. Aqui está o argumento:
Se há alternativa moralmente válida, então não é justo matar um ser humano.
Há alternativa moralmente válida à pena de morte. (premissa omitida)
Logo, a pena de morte é inaceitável.
 
O que é argumentar bem?
 
Sempre que procuramos convencer os outros das nossas ideias devemos apresentar bons argumentos. O que é um bom argumento? Em termos gerais e de uma forma ainda vaga diremos que um bom argumento é aquele cujas premissas justificam e defendem a conclusão. Contudo, esta definição apesar de nos pôr no bom caminho não nos faz avançar muito. Temos de ser mais explícitos e mais concretos. Porquê? Porque há diferentes tipos de argumentos e avaliá-los como bons significa que cumprem critérios ou regras diferentes.
Há dois tipos de argumentos: os dedutivos e os indutivos. Assim, a pergunta O que é um bom argumento? Divide-se em duas: O que é um bom argumento dedutivo? e O que é um bom argumento indutivo?
 
Sócrates, Platão e Aristóteles são exemplos do cuidado com a arte de bem argumentar na procura da verdade
 
O que é um bom argumento dedutivo?
 
Para serem bons os argumentos dedutivos devem obedecer a duas condições:
1-    Devem ser válidos;
2-    Devem ser constituídos por premissas de facto verdadeiras ou bastante plausíveis.
Um bom argumento dedutivo além de válido, é constituído por proposições de facto verdadeiras ou muito plausíveis.
A título de exemplo e sem efectuar ainda qualquer análise eis um argumento que cumpre estes critérios:
Todas as pessoas que nasceram em Viana do Castelo são minhotas
O autor deste manual nasceu em Viana do Castelo
Logo, o autor deste manual é minhoto
 
O que é um argumento dedutivamente válido?
Em termos simples, um argumento válido é um argumento correcto, em que as premissas e a conclusão estão bem relacionadas.
Em termos mais técnicos, um argumento dedutivamente válido é um argumento com a seguinte característica: se as premissas forem verdadeiras, então a conclusão também tem de ser verdadeira.
Por outras palavras, se, por exemplo, for verdade que todos os portugueses gostam de cerveja e se for verdade que Miguel é português, então segue-se necessariamente das premissas apresentadas que é verdade que Miguel gosta de cerveja.
 
Para avaliar a validade de um argumento dedutivo não importa saber se as premissas ou a conclusão são de facto verdadeiras. O que importa é saber se, supondo ou imaginando que as premissas são verdadeiras, a conclusão pode ser considerada uma consequência necessária das premissas.
 
Todos os professores ganham muito dinheiro.
Deco é professor.
Logo, Deco ganha muito dinheiro.
 
Como se determina a validade deste argumento? Como se avalia se é válido ou inválido?
Raciocinando do seguinte modo: Se a proposição “todos os professores ganham muito dinheiro” for verdadeira e se supusermos que a proposição “Deco é professor” é verdadeira, o que dizer da conclusão “Deco ganha muito dinheiro”? Deriva necessariamente das premissas? A resposta, neste caso, é obviamente afirmativa, ou seja, o argumento é válido.
 
E se o argumento for este?
 
Todos os professores ganham muito dinheiro.
Deco ganha muito dinheiro.
Logo, Deco é professor.
 
Neste caso, raciocinamos do mesmo modo: Se a proposição “Todos os professores ganham muito dinheiro” for tomada por verdadeira e a proposição “Deco ganha muito dinheiro” também, o que dizer da conclusão “Deco é professor”? Que não deriva necessariamente das premissas, isto é, que o argumento não é válido. Com efeito, não se diz nas premissas que só os professores ganham muito dinheiro.  Para testar a validade de um argumento devemos primeiro imaginar que as premissas são verdadeiras - quer o sejam de facto ou não - e depois perguntar se é logicamente possível que a conclusão seja falsa. Se não for possível, o argumento é válido.
 
 
Como se vê, a suposição da verdade das premissas é um mero procedimento formal para avaliar a ligação ou a relação entre as premissas e a conclusão. Com efeito, a validade de um argumento é independente da verdade de facto das premissas e da conclusão. Por isso, um argumento pode ser válido, apesar de as premissas e a conclusão serem de facto falsas, e pode ser inválido, apesar de as premissas e a conclusão serem de facto verdadeiras. A validade de um argumento depende unicamente da forma lógica do argumento, ou seja, da relação correcta que se dá entre as premissas e a conclusão (sejam estas de facto verdadeiras ou não).
Poderá objectar-se que o que nos interessa é formular raciocínios válidos e ao mesmo tempo constituídos por premissas e conclusão de facto verdadeiras. É indiscutível. Com efeito, os nossos argumentos não serão convincentes e persuasivos se a validade não for acompanhada pela verdade efectiva ou plausível do que dizemos, isto é, das premissas e da conclusão. A este respeito, os lógicos distinguem entre argumento válido e argumento sólido. O argumento sólido é não somente válido (formalmente correcto, cuja conclusão deriva necessariamente das premissas) como também constituído por premissas e conclusões de facto verdadeiras ou então plausíveis. Porquê então estudar a validade dos argumentos? Porque a validade é uma das condições necessárias para que os nossos argumentos sejam sólidos. Um argumento sólido é um argumento dedutivamente válido constituído por premissas que são todas de facto verdadeiras ou bastante plausíveis e consequentemente por conclusão verdadeira.
 
 
Para que um argumento dedutivo seja bom, a sua validade é uma condição necessária mas não suficiente.
Neste momento deves estar a pensar que é importante ter um argumento dedutivo correctamente construído ou válido mas que também é importante ter um argumento válido que ao mesmo tempo seja constituído por premissas e conclusão de facto verdadeiras. Por outras palavras que um argumento tenha uma forma correcta não é suficiente para ser bom. Além da forma também importa o conteúdo.
Tem razão. Argumentar bem é muito mais do que dizer disparates ou tolices de forma correcta. Tem de haver uma preocupação com a verdade de facto das proposições que constituem os argumentos.
O que é então um argumento dedutivamente bom? Imagina que um colega teu diz que é um argumento válido e ao mesmo tempo verdadeiro. Será acertado dizer isto? Não. Os argumentos podem ser válidos ou inválidos, bons ou maus, dedutivos ou indutivos mas não se deve dizer que são verdadeiros, melhor dizendo, não têm um valor de verdade. A verdade ou a falsidade são qualidades das proposições que eventualmente constituam os argumentos mas não são propriedades dos próprios argumentos. Os argumentos não são verdadeiros nem falsos. As proposições que os constituem é que podem ser verdadeiras ou falsas. Válido é sinónimo de correcto, não de verdadeiro.
 
Validade e solidez dos argumentos dedutivos
 
Um bom argumento dedutivo é o que além de ter uma conclusão logicamente apoiada pelas premissas é constituído por premissas de facto verdadeiras. A relação entre premissas e conclusão é correcta sendo as premissas e a conclusão proposições de facto verdadeiras. É o caso deste argumento:
 
Todos os animais que ladram são cães
Os São Bernardo são animais que ladram
Logo, os São Bernardo são cães.
 
Mas já não é o caso deste:
 
Todos os animais são seres que ladram
Os São Bernardo são animais
Logo, os São Bernardo são seres que ladram
 
Apesar de correcto, de as premissas apoiarem logicamente a conclusão, este argumento não é bom porque uma das premissas é de facto falsa.
O bom argumento dedutivo denomina-se argumento sólido.
Os nossos argumentos não serão convincentes e persuasivos se a validade não for acompanhada pela verdade efectiva ou plausível (aceitável) do que dizemos, isto é, das premissas e da conclusão. O argumento sólido é não somente válido (formalmente correcto, cuja conclusão deriva necessariamente das premissas) como também constituído por premissas e conclusão de facto verdadeiras ou então plausíveis.
Porquê estudar a validade dos argumentos? Porque a validade é uma condição necessária da solidez de um argumento. Assim, se lhe perguntarem se um determinado argumento é sólido, o que imediatamente deves fazer é verificar se é válido. Se não for válido, mesmo que tenha premissas e conclusão de facto verdadeiras, não será sólido ou bom.
 
É o caso deste argumento:
 
Alguns futebolistas ganham muito dinheiro
Cristiano Ronaldo é futebolista
Logo, Cristiano Ronaldo ganha muito dinheiro.
 
As premissas e a conclusão são de facto verdadeiras. Contudo, as premissas não apoiam logicamente a conclusão. Só se a primeira premissa fosse Todos os futebolistas ganham muito dinheiro é que teríamos um argumento válido. Seria com essa correcção um argumento bom ou sólido? Não porque não é realmente verdade que todos os futebolistas ganhem muito dinheiro.
 
 
O que é um bom argumento indutivo?
 
No caso dos argumentos dedutivos sabemos que a verdade (suposta ou de facto) das premissas garante a verdade da conclusão. Se suponho ser verdade que só os ricos estudam e que é verdade que Miguel é estudante tenho de concluir que Miguel é rico. Seria contraditório, logicamente impossível, afirmar que só os estudantes são ricos e concluir que algum estudante não é rico.
 
A validade indutiva é diferente da validade dedutiva.
 
Um argumento indutivo é válido quando é improvável (ou muito pouco provável) mas não impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa.
 
Considere o seguinte argumento:
Todas as pessoas que comeram no restaurante Zodíaco ontem à noite ficaram doentes.
Logo, a comida estava estragada.
 
Trata-se de um bom argumento indutivo. Não é impossível que algumas pessoas tenham ficado doentes por terem apanhado um resfriado mas é muito provável que a conclusão seja verdadeira. A verdade da premissa torna fortemente provável a verdade da conclusão.
 
Considera outro argumento:
Até agora nenhuma mulher foi Presidente da República em Portugal
Logo, nenhuma mulher será Presidente da República de Portugal
Trata-se de um argumento indutivo inválido. Com efeito, é perfeitamente possível e altamente provável que apesar da verdade da premissa a conclusão seja falsa.Com efeito, noutros países há e já houve mulheres presidentes da república, em Portugal já houve uma candidata ao cargo e o acesso de mulheres a cargos importantes está a generalizar-se tornando provável que num futuro próximo tenhamos uma mulher na presidência da república.
 
Um bom argumento dedutivo é constituído por premissas verdadeiras e dessas premissas segue-se com um alto grau de probabilidade a verdade da conclusão.Aos bons argumentos indutivos dá-se o nome de argumentos fortes (as premissas não garantem mas dão – nos fortes razões para acreditar na verdade da conclusão). Aos maus argumentos indutivos dá-se o nome de argumentos fracos (é possível imaginar muitas situações em que as premissas são verdadeiras mas a conclusão é falsa).
 
Os vários tipos de argumentos indutivos
 
Há três tipos de argumentos indutivos: as generalizações, as previsões e os argumentos por analogia.
As generalizações são argumentos em que a conclusão acerca de um grupo de objectos é estabelecida observando uma amostra desse grupo de objectos. A generalização consiste em atribuir a todos os casos possíveis de certo tipo aquilo que se verificou em alguns casos desse tipo. Exemplo:
Cada um dos cães que observei até hoje ladrava.
Logo, todos os cães ladram.
 
A generalização justifica, portanto, uma conclusão universal a partir de premissas menos gerais. A generalização não garante que a sua conclusão é verdadeira. Como a conclusão é mais geral do que a premissa, a generalização não pode garantir que um dos casos por observar não venha a refutar a conclusão. O máximo que conseguimos com este tipo de argumento é legitimidade para tratar a conclusão como sendo muito provável e, talvez, legitimidade para desprezar a possibilidade de erro.
As previsões são argumentos em que as premissas se baseiam em casos passados e a conclusão se refere a casos particulares não observados. Também tem o nome de indução para o caso seguinte. Exemplo:
Todos os 27 feijões que retirei deste saco são brancos.
Logo, o próximo feijão que retirar deste saco será branco.
 
O tipo de argumento indutivo mais popular entre os filósofos é o argumento por analogia.
O argumento por analogia atribui uma propriedade a um acontecimento ou objecto por tal propriedade se ter verificado em algum objecto ou acontecimento semelhante.
É uma forma de argumento muito usada, como sugere a seguinte analogia:
 
Como este cão é muito semelhante ao do Miguel, também deve morder sem razão aparente.
 
Neste argumento, usam-se as semelhanças entre o cão do Miguel e o cão sob observação, para justificar a atribuição ao segundo da propriedade de «morder sem razão aparente» já verificada no primeiro.
Como é frequente em contextos práticos, o argumento apenas declara que existem semelhanças. Se fossem explicitadas, obtínhamos um argumento com este aspecto:
 
O cão do Miguel é semelhante a este em raça, porte e olhar nervoso.
O cão do Miguel morde sem razão aparente.
Logo, este cão morde sem razão aparente.
 
 
Como se critica um argumento?
 
As noções muito básicas que apresentámos sobre os argumentos mais frequentemente utilizados em filosofia são uma introdução indispensável à actividade filosófica séria. A clarificação de um argumento é já um exame crítico porque já somos orientados pela questão Será que a tese defendida pelo argumento é verdadeira?
 
Para criticar um argumento, para mostrar que não é um bom argumento, temos de perguntar duas coisas:
1 – As premissas justificam ou apoiam a conclusão?
No caso de argumentos dedutivos, a questão traduz-se assim: se considerarmos as premissas verdadeiras será que isso garante a verdade da conclusão?
No caso dos argumentos indutivos, a questão traduz-se assim: será que se as premissas forem verdadeiras isso torna provável que a conclusão seja verdadeira?
 2 – As premissas são verdadeiras ou falsas?
 
Se o argumento for inválido nunca poderá ser bom mesmo que constituído por premissas verdadeiras. Não é suficiente a verdade das premissas. É também necessário que elas tenham algo a ver com a conclusão, mais propriamente que a apoiem e nos dêem boas razões para a considerarmos verdadeira.
 
Se o argumento for válido temos uma condição necessária (indispensável) para haver um bom argumento mas não temos uma condição suficiente (é precisa mais alguma coisa). É também exigido que as premissas sejam todas de facto verdadeiras.
 
Sabendo que um argumento dedutivo é bom se for válido e tiver premissas verdadeiras basta mostrares ou que tem uma premissa falsa ou que não é válido para o refutares.
 
Sabendo que um argumento indutivo é bom se for válido (as premissas tornam provável a conclusão) e se tiver premissas verdadeiras basta que algum destes critérios não seja cumprido para que se refute o argumento.
 Exemplifiquemos com um argumento dedutivo:
 
Se jogarmos bem, então ganhamos o torneio    Se A então B
De facto, ganhámos o torneio                           B
Logo, jogámos bem                                           Logo, A
 
Como refutar este argumento? Basta mostrar que não é dedutivamente válido, ou seja, que quem aceita as premissas não tem de aceitar a conclusão.
 
Podemos fazê-lo de dois modos:
 
1-    Mediante uma «experiência mental».
Uma experiência mental é uma situação imaginária cujo objectivo é determinar se uma tese ou conclusão é verdadeira. Através desta técnica testamos teses ou conclusões colocando a questão «E se...» e seguindo as suas consequências lógicas. Verificamos deste modo se uma proposição é sustentável em todas as situações possíveis.
 Trata-se de imaginar uma situação em que aceitando as premissas a conclusão é contudo falsa. Ganhámos o torneio mas será que foi por termos jogado bem? È perfeitamente possível que tenhamos ganho por falta de comparência dos adversários, porque jogámos mal mas os outros ainda jogaram pior ou porque o árbitro nos favoreceu escandalosamente. Ou seja, as premissas não obrigam a admitir que a única forma de ganhar seja jogar bem.
 
2 – Mediante um contra-exemplo
Um contra-exemplo é um exemplo que entra em conflito com uma teoria e prova ou sugere que esta é errada ou falsa. É uma técnica muito usada pelos filósofos.
Um contra-exemplo consiste em apresentar um outro argumento mas com a mesma forma ou estrutura deste.Com isso provamos que qualquer argumento com esta forma é inválido e por conseguinte que não é bom.
Para usarmos esta técnica podíamos apresentar:
Se é professor então gosta de ler              Se A então B
De facto, gosta de ler                                 B
Logo é professor                                        Logo A
 
Este argumento tema mesma estrutura ou forma lógica do anterior. É válido, aceitando as premissas temos de aceitar a conclusão? Não porque há milhões de pessoas que gostam de ler e não são professores. Se este argumento é inválido qualquer argumento com a mesma estrutura é inválido e por conseguinte um mau argumento.
Usamos contra – exemplos para atacar ou pôr à prova a verdade de uma premissa. Assim, se eu disser Todos os estudantes são cábulas basta um exemplo de um estudante que seja honesto para negar aquela proposição e constituir um contra-exemplo.
A redução ao absurdo
A refutação ao absurdo é outra técnica muito utilizada em filosofia para por à prova argumentos. O argumento por redução ao absurdo é uma forma de refutação também conhecida pela expressão latina reductio ad absurdum.
 Considera o seguinte argumento de um advogado em defesa do seu cliente:
O meu cliente estava em Madrid 10 minutos antes de o assassínio ter sido cometido.
O assassínio foi cometido em Lisboa
O meu cliente é o assassino
Logo, o meu cliente viajou de Madrid para Lisboa em menos de 10 minutos.
 
Este argumento é utilizado para mostrar que uma das premissas O meu cliente é um assassino é falsa porque conduz a uma conclusão absurda (Ninguém pode viajar de Madrid a Lisboa em menos de 10 minutos). Não pode portanto ser verdade que o cliente do advogado é o assassino.
 
Vejamos outros exemplos:
Suponhamos que num tribunal o advogado de acusação apresenta o seguinte argumento:
1 – A vítima foi atingida duas vezes por uma arma de calibre 44
2- O réu comprou uma arma de calibre 44 três dias antes do crime
3 – O réu e a vítima tiveram uma violenta discussão na semana anterior ao crime
4 – O réu suspeitava que a vítima o andava a enganar
5 – Amigos e vizinhos podem testemunhar as expressões de ciúme e de raiva do réu na semana anterior ao crime.
6 – Durante os três dias que antecederam os disparos, o réu foi visto a disparar com o seu revolver de calibre 44 contra um alvo que tinha inscrito o nome da vítima.
7 – Há testemunhas que viram o carro do réu estacionado perto da casa da vítima duas noites antes do crime
8 – Descobriram-se as impressões digitais do réu na arma do assassino
9- Por conseguinte, o réu é culpado pela morte da vítima.
Este argumento é bom? se as evidências apresentadas pela acusação forem fiáveis, isto é, se toda a informação contida nas premissas for verdadeira ou muito plausível, teria o juíz boas razões para pensar que a conclusão é verdadeira( que o réu é culpado? parece haver boas razões para assim pensar.
Suponhamos, contudo, que havia várias imprecisões na informação contida nas premissas. Suponha-se que o laboratório de balística tinha cometido um erro: a arma do crime era de calibre 387 e não 44. Suponha-se que o carro estacionado perto da residência da vítima não era realmente o do réu. Suponha-se também que as impressões digitais não eram as do acusado e que os testemunhos de vizinhos e amigos eram falsos. Em tais circunstâncias, não pensaríamos obviamente que as premissas dessem boas razões para considerar verdadeira a conclusão.
 
As premissas de um bom argumento devem ser verdadeiras. Assim uma das primeiras coisa a fazer quando examinas um argumento é verificar se as premissas do argumento são verdadeiras. Se vires premissas duvidosas, tenta refutá-las.
Premissas falsas, contudo, não são a única fonte de descrédito de um argumento.
 
Para te aperceberes da segunda exigência a cumprir por um argumento para ser bom, considera a argumentação de um outro advogado de acusação noutro caso:
1-    O réu tem uma cicatriz no rosto e muitas tatuagens nos braços.
2-    Muitos assaltantes têm cicatrizes no rosto e tatuagens nos braços
3-    O réu não completou a escolaridade obrigatória
4-    Muitos assaltantes de bancos não cumpriram a escolaridade obrigatória
5-    O réu possui várias armas de fogo
6-    Muitos assaltantes de bancos possuem várias armas de fogo
7-    O réu é o que muitas pessoas consideram um indivíduo com mau aspecto
8-    Muitos assaltantes de bancos são pessoas com mau aspecto
9-    Logo, o réu assaltou o banco.
 
Suponhamos que todas as premissas são verdadeiras. Suponhamos que há estatísticas que mostram que os assaltantes de bancos Têm várias características típicas como cicatrizes, tatuagens e escolaridade obrigatória incompleta. Será que sendo estas premissas verdadeiras temos boas razões para considerar verdadeira a conclusão? È óbvio que não.
Este exemplo revela a importância de uma segunda exigência para que haja um bom argumento. Podemos ter premissas todas verdadeiras e contudo não provar a verdade da conclusão. A ligação entre as premissas e a conclusão pode não ser conclusiva e apropriada ou as premissas não tornam significativamente provável a conclusão.
 
É importante saber que os argumentos podem falhar completamente mesmo que as suas premissas sejam 100% verdadeiras. Isto significa que se quiseres discordar de alguém não precisas de discordar de todas as proposições que afirma. Até podes estar de acordo com elas (com as premissas) mas negar que a conclusão derive delas, seja uma consequência necessária delas ou uma consequência provável.
 
 
 
Exercícios de análise de textos
 
I
            
 Tenho vindo a dizê-lo repetidas vezes: trata-se de uma mera vingança da sociedade, mas não traz qualquer solução para os problemas sociais e económicos que levam ao crime. Daí que considere que é inaceitável a pena de morte. De facto, uma tal penalização em nada repara o sofrimento da vida ou da família; em nada serve de castigo exemplar, pois, se o fosse, bastava ter havido um só executado; em nada segue o exemplo dado pelos países civilizados, em que tem sido transformada em prisão perpétua sem que isso represente um aumento das respectivas taxas de criminalidade; em nada reduz um direito da sociedade, pois se não foi ela que deu a vida ao criminoso, também não será ela que tem o direito de lha retirar; em nada simboliza um gesto da humanidade, de amor ao próximo e de fraternidade, cuja carência está, psicologicamente, na base de qualquer crime violento. Em nada se pode basear a defesa de tão repugnante, vil, odioso e chocante procedimento como a pena de morte.
Manifesto Anónimo
 
Identifique o problema sobre o qual o texto toma posição.


Problema: A pena de morte é aceitável?
 
Identifique a tese central do autor.
 
Defende – se a tese de que a pena de morte é injustificada sob todos os ângulos: não defende a sociedade contra o crime, não está de acordo com a moral nem com o direito.
 
Explicite os argumentos apresentados.
 
Argumento que critica a ideia da pena de morte como reparação do sofrimento:
 A pena de morte é legítima apenas se a pena de morte reparar o sofrimento. Mas a pena de morte não repara o sofrimento. Logo, a pena de morte não é legítima. (Muitas pessoas tendem a usar, como primeira premissa, a afirmação "Se a pena de morte repara o sofrimento, então a pena de morte é legítima", o que torna o argumento inválido, um caso da falácia da negação do antecedente.)
Argumento que critica a ideia da pena de morte como castigo exemplar:
Se a pena de morte fosse um castigo exemplar, então bastaria uma execução para prevenir crimes susceptíveis de pena de morte. Ora, já se deram e continuam a dar execuções. Logo, é falso que as execuções previnam crimes susceptíveis de pena de morte. Logo, é falso que a pena de morte seja um castigo exemplar.
 
Argumento baseado no progresso civilizacional:
 
Os países mais civilizados substituem a pena de morte pela prisão perpétua, sem a desvantagem do aumento de crimes. Devemos seguir os países mais civilizados na substituição da pena de morte pela de prisão perpétua. Ora, os países mais civili-
zados substituem a pena de morte pela prisão perpétua e sem desvantagens. Logo, devemos, como os países mais civilizados, substituir a pena de morte pela prisão perpétua.
 
Argumento baseado nos princípios do direito:
 
Se não foi a sociedade que deu a vida ao criminoso, também não é ela que tem o direito de lha retirar. Não foi a sociedade que deu a vida ao criminoso. Logo, a sociedade não tem o direito de retirar a vida ao criminoso.
Argumento baseado nas condições da boa cidadania e da paz social:
Se a pena de morte é legítima, deve contribuir para a diminuição dos crimes violentos.
Se a sociedade perde os laços do amor e da fraternidade, os crimes violentos aumentam.
A pena de morte contribui para a perda dos laços de amor e fraternidade da sociedade.
A pena de morte contribui para o aumento dos crimes violentos.
   Logo, pena de morte não é legítima.
 
Admita que tinha de atacar um dos argumentos apresentados. Escolha-o e exponha as linhas principais do (s) seu (s) contra argumentos.
 
Os três primeiros argumentos apelam a factos contra três tentativas de justificar a pena de morte. Ao apelar a factos, porém, concedem a última palavra a uma investigação empírica bastante espinhosa porque não se podem relacionar apenas os dados relativos à pena de morte e ao crime esquecendo outros factores. Por exemplo: a afirmada diminuição dos crimes violentos nas sociedades mais civilizadas pode ser atribuída à diminuição da miséria e, por isso, não se pode facilmente eliminar a hipótese de que as sociedades mais civilizadas ainda teriam menos crimes violentos mantendo a pena de morte.
 
O argumento pelos princípios do direito tende a impressionar, mas tem dificuldades óbvias. Pode-se, por exemplo, argumentar que, num sentido importante, a sociedade dá a vida - numa espécie de contrato implícito que assegura o mínimo de ordem e protecção da vida.
 
O último argumento também apela a um facto - a diminuição de laços de fraternidade gera o aumento da criminalidade -, mas, neste caso, é difícil imaginar que a pesquisa empírica o possa desacreditar. Tem também a vantagem de permitir rever e reforçar os primeiros argumentos. Estes deixariam de ser interpretados em termos estatísticos, como é sugerido, para serem revistos em função das condições psicológicas do crime: eliminando a pena de morte, a sociedade repele a ideia de que matar pode ser um acto de justiça, ideia esta que, certamente, não contribui para a diminuição da violência.
 
II
 
Se o poder político tem por função primeira dar a sua força ao direito das liberdades a despeito dos poderes, ele deve permanecer independente destes. Ele deve, exactamente, ter poder sobre os outros poderes, sobre toda a força que tenda a exercer-se contra a liberdade dos fracos. Disso resulta que não pode ser nenhum dos poderes. Nem o poder económico, nem poder ideológico, nem o poder religioso. Também não pode identificar-se com o poder de mais prestígio e eficaz - o da ciência e técnicas que ela engendra. Em particular e forçosamente, pois o seu poder afecta directamente o espírito, a ciência médica. Por isso a medicina não deve tornar-se uma competência do Estado.
Claude Bruaire, Une éthique pour Ia medicine, Fayard, 1978, pág. 132
 
Explicite o problema abordado no texto.
O problema tratado no texto é este: Deve a medicina tornar-se uma das competências do Estado?
 
Observação: O problema central é obscurecido pelo facto de grande parte do texto se dedicar a estabelecer uma premissa - O Estado não pode identificar-se com o poder da ciência e das técnicas -, desejada para a conclusão, e pelo facto de a conclusão aparecer subitamente deduzida de uma premissa muito mais geral.
 
O texto tem dois argumentos. Um primeiro é um subargumento destinado a justificar uma tese sobre o poder político. O argumento principal usa a conclusão do anterior para justificar a sua primeira premissa.
 
- Explicite os dois argumentos.
 
O poder político deve ser independente dos outros poderes.
A ciência e as técnicas que ela engendra são poderes.
Logo, o Estado deve ser independente das ciências e das técnicas.
 
A tese ou conclusão principal pode parecer um pouco surpreendente. Há material suficiente para a estabelecer? Há premissas omitidas que possam atenuar ou dissipar essa surpresa?
 
 O que pensa do argumento?
 
O argumento é muito pouco claro, o que, aliás, é frequente na argumentação política. Não é claro, por exemplo, o alvo da argumentação: o que é abrangido pela expressão "medicina como competência do Estado"? Tudo - da investigação ao levantamento dos problemas da saúde pública - o que se relaciona com medicina? Ou o que habitualmente se designa por Saúde Pública?
Também não é claro que considerar a medicina uma competência do Estado seja "identificar" o Estado com a ciência e as técnicas: a defesa da soberania é uma competência do Estado, mas isso não significa identificação do Estado com a Física, a Engenharia, a Geografia e outras ciências e técnicas necessárias à instituição militar. A falta de clareza do argumento deve-se ao facto de o argumentador ter passado da discussão de princípios muitos gerais para uma questão mais específica sem os necessários passos intermédios.
 
 
Ill
 
 
As descobertas da técnica tiveram por consequência dividir domínios até aqui confundidos: sexualidade, reprodução, maternidade e educação. Ora, quando se dividem domínios nos quais se pode agir selectivamente, as escolhas possíveis são introduzidas e multiplicadas: cria--se uma liberdade. A mulher é assim, cada vez mais, desalienada em relação à natureza graças às ciências da natureza.
Evelyne Sullerot, Lê Fait Féminin, Centre Royaumont pour une science de rhomme,Fayard, 1978, pág. 18
 
Que problema é tratado no texto?
 
Problema: Qual o papel da ciência e da técnica para a mudança da condição da mulher?
 
Qual é a tese defendida?
 
Defende – se a tese de que ciência e a técnica têm contribuído para a desalienação da mulher.
 
Que argumento é apresentado? (Responda usando a transcrição o menos possível e privilegiando a clareza).
 
A fusão da sexualidade, da reprodução, da maternidade e da educação retira muitas possibilidades à mulher. Ora, a ciência e a técnica separaram esses domínios. Logo, a ciência e a técnica contribuem para a liberdade da mulher.
 
O texto supõe a afirmação de que, sem a separação de domínios apontada, a mulher estaria mais alienada, isto é, teria uma vida menos humana porque estaria mais presa à natureza. Pode apresentar razões para defender esta suposição?
 
A resposta apela à reconstituição da condição da mulher anterior à separação daqueles domínios. A pressão de tais circunstâncias faz com que cada uma das funções apontadas apareça limitada pelas outras que, em conjunto, se transformem num destino "natural" da mulher.
 
IV
 
Quisemos tudo, desejámos tudo, tomámos tudo, obtivemos tudo. Devorámos tudo como as vítimas da fome canina em que nos transformámos. E, assim que tivemos tudo, precisámos de nos voltar para outra coisa. A satisfação não é do nosso mundo. Um grande amor? Precisamos de um filho. Um filho? Precisamos de dois, depois de três ou quatro. Um marido? Precisamos de um amante. O emprego? Precisamos de chegar ao topo. As alturas? Precisamos também do dinheiro. O êxito completo? Precisamos da felicidade. Tudo ao mesmo tempo? Continua a não ser bom. Cansa ser superwoman...
Michéle Fitoussi, Lê ras-le-bol dês Superwomen, Calmann-Lévy, 1987, pág. 195
 
Identifique o problema abordado no texto.
 
Problema: A mulher emancipada é a mulher realizada?
 
O texto esforça-se por apresentar uma justificação indutiva da tese ou conclusão que, por sua vez, está ausente. Clarifique a tese e o argumento.
 
O texto pretende defender a tese de que as metas habitualmente apontadas para a realização (satisfação) da mulher são ilusórias. O argumento consiste apenas em, sucessivamente, apontar tais metas - amor, casamento, descendência, emprego, dinheiro, sucesso completo - e afirmar, para cada uma, o seu fracasso. Como não se detém em dados que confirmem este fracasso, o argumento supõe que os factos sugeridos são consensuais.
 
Discuta o argumento. A conclusão que for extraída será verdadeira para todo o ser humano?
 
O texto admite que o destinatário conhece exemplos claros de cada uma das situações de fracasso ou desilusão que aponta, mas parece contra esse conhecimento para criar a adesão a uma generalização precipitada e duvidosa, isto é, uma generalização sem base suficiente e que nem considera os casos que a podem pôr em causa. Efeito semelhante ocorre quando as pessoas, impressionadas pela meia dúzia de disparates de condução que observaram durante uma viagem de automóvel, concluem que "só há loucos na estrada" - omitindo, portanto, os milhares de condutores com que se cruzaram e que não lhe deram razão de queixa. A raiz desta generalização está no facto de os casos que fogem à regra serem, precisamente por isso mesmo, os que mais impressionam. Da mesma maneira, os exemplos de pessoas que, apesar de aparentarem todas as condições para se sentirem realizadas, estão insatisfeitas, são os que mais impressionam e fazem esquecer os casos de pessoas talvez anónimas, mas bem sucedidas.
 
Contribuindo para estabelecer a generalização precipitada está a indefinição com que é usada a ideia de "insatisfação". O texto assume que o destinatário está pronto a aceitar que a satisfação obtida pelo sucesso em alguma actividade nunca é completo e fica, em regra, aquém do esperado. De facto é difícil desacreditar tal ideia, mas o texto evita, mediante a catadupa de exemplos, considerar a ideia de que um grau tolerável de insatisfação não é incompatível com a ideia de realização ou, noutros termos, que uma satisfação incompleta não tem de ser sinónimo de pura insatisfação.
Por estas razões é duvidoso que o argumento estabeleça tanto como quer
estabelecer.
 
V
 
Assim que uma mulher transpõe a fronteira do território masculino, a natureza do combate profissional muda. As virtudes que se exigem então de uma mulher, pergunta-se quantos homens seriam capazes de mostrá-las.
 
Eu disse há pouco que a evolução actual das mulheres, a forma que ela se assumirá - e pode fracassar-, é a meu ver o tema de perturbação mais profundo das sociedades desenvolvidas, juntamente com a partilha do poder de decisão. Ateou-se um incêndio que diz respeito ao essencial das coisas, e em primeiro lugar à família. A origem é a pílula, naturalmente. Não porque ela permite evitar os filhos - esse é o aspecto acessório, por mais cómodo que seja -e sim porque, pela primeira vez na história da humanidade, cabe às mulheres a decisão sobre o objectivo mais fundamental. Biologicamente. E não apenas lhes cabe a decisão, como elas não podem escapar dela, uma vez que não toma-la é uma forma de toma-la. É claro que essa responsabilidade maior está na origem do movimento de fundo que se manifesta neste momento, e que ela conduz à exigência de responsabilidades sociais. Mas tudo isto é complicado. As mulheres não têm medo de perder o que elas não têm, não é mesmo?.. A autoridade, o comando, o poder; em suma, a decisão exercida por alguém que não se sente ameaçado na sua virilidade ou obrigado a tranquilizar-se a seu respeito, não terá nem os mesmos efeitos nem o mesmo carácter. Portanto, todo acesso em massa das mulheres a postos de responsabilidade deveria ter consequências consideráveis, inestimáveis, na condução dos assuntos humanos.
Françoise GIROUD, Si je mens, Librarie Générale Française, 1974, Paris, pp. 140-1.
 
Este texto pretende justificar uma tese sobre a actual relação entre a condição, em mudança, da mulher e a sociedade.
 
Apresente uma análise crítica do texto de acordo com as seguintes linhas:
Indicação do problema abordado e da tese central.
 
Apresentação do argumento, da forma mais simples possível e evitando transcrições.
Avaliação do argumento e, se for o caso, indicação das linhas que poderiam ser seguidas para a sua crítica.
 
O texto aborda o problema do impacto da emancipação da mulher sobre a estrutura do poder e pretende concluir que o acesso da mulher ao poder trará mudanças profundas, revolucionárias, ao exercício do poder.
 
O argumento parte de um facto: a pílula deu à mulher um poder de decisão sobre a reprodução de que não dispunha. Mas o mais importante é que esse poder de decisão é, ao mesmo tempo, um poder de decisão sobre o seu próprio estatuto - tendo de decidir sobre o uso ou não da pílula, a mulher tem de decidir sobre se quer ou não esse poder e essa responsabilidade nova.
 
O poder de decisão assim adquirido desencadeia (ou reforça) o movimento da mulher para o aumento do seu poder e das suas responsabilidades na sociedade.
Esta primeira parte do argumento apenas expõe o impacto da pílula na luta da mulher para ultrapassar a seu estatuto de submissão. Mas, baseado nele, podemos prever apenas uma repartição mais equitativa das responsabilidades sociais, nada foi dito ainda sobre mudanças significativas nos fins e natureza dos poderes. Este objectivo será atingido mostrando que a forma de a mulher exercer o poder terá, necessariamente, uma profunda diferença qualitativa em relação à maneira como o homem o exerce.
Um homem pode desejar o poder por vários motivos e, claro, os motivos influenciarão a maneira como se busca e exerce o poder. Mas a motivação fundamental e subjacente a todas as outras é, no homem, de raiz biológica: a autoridade de que o homem precisa é a do "macho dominante", que encontramos em outras espécies de mamíferos onde o exercício do poder garante a virilidade, assegurando o domínio das fêmeas e a reprodução. O poder exercido pelo homem não deixará de exprimir, com ou sem disfarce, o desejo de garantir ou impor a virilidade.
 
A mulher, para sair da submissão, terá de enfrentar essa identificação arcaica entre o poder e a virilidade. Esse facto explica as dificuldades, referidas no primeiro parágrafo, que a mulher enfrenta na sua competição com o homem - não lhe basta provar que é competente para uma posição de responsabilidade, tem ainda de enfrentar o sentimento de ameaça à virilidade. Acontece que a mulher não tem, claro, qualquer motivo para temer a perda ou depreciação da sua virilidade. Assim, sejam quais forem as formas pelas quais ela venha a exercer o poder, ele terá um aspecto necessariamente diferente.
 
VI
 
O texto de Freud, que apresentamos para análise, é um pouco mais longo do que os anteriores. Porém, muito do material apresentado destina-se a esclarecer as suas premissas, podendo, portanto, ser consideravelmente sintetizado.
 
Sugerimos que na leitura exploratória procure descobrir, da forma mais simples possível:
 
A distinção entre erro, ilusão e delírio e a respectiva justificação;
 
A tese dos desejos infantis como origem das ilusões.
 
Vejamos a génese psíquica das ideias religiosas. Essas ideias que professam ser dogmas não são o resíduo da experiência ou o resultado final da reflexão: elas são ilusões, a realização dos desejos mais antigos, mais fortes, mais prementes da humanidade; o segredo de sua força é a força desses desejos. Já vimos: a impressão aterradora da angústia infantil havia despertado a necessidade de ser protegido - protegido e amado -, necessidade que o pai satisfez; o reconhecimento do facto de que essa angústia dura a vida inteira fez com que o homem se apegasse a um pai, a um pai desta vez mais poderoso. A angústia humana diante dos perigos da vida tranquiliza-se ao pensar no reino benevolente da Providência divina; a instituição de uma ordem moral do universo assegura a realização das exigências da justiça, tão irrealizadas nas civilizações humanas, e o prolongamento da existência terrestre numa vida futura fornece os quadros de tempo e de lugar em que esses desejos se realizarão. Respostas às questões colocadas pela curiosidade humana diante destes enigmas: a génese do universo, a relação entre corporal e o espiritual, elaboram-se de acordo com as premissas do sistema religioso. E é um formidável alívio para a alma individual ver os conflitos da infância, emanados do complexo paterno - conflitos jamais inteiramente resolvidos - serem-lhe, por assim dizer; retirados e receberem uma solução aceite por todos.
 
Quando digo: tudo isso são ilusões cumpre que eu delimite o sentido desse termo. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, uma ilusão tão pouco é necessariamente um erro. A opinião de Aristóteles, segundo a qual os vermes seriam engendrados pelo lixo era um erro. Era uma ilusão da parte de Cristóvão Colombo acreditar ter descoberto um novo caminho marítimo das índias. O que caracteriza a ilusão é ser derivada dos desejos humanos; deste modo ela se aproxima da ideia delirante sem psiquiatria, mas também separa-se desta, mesmo se levarmos em conta a estrutura complicada da ideia delirante. A ideia delirante está essencialmente - sublinhamos esse carácter - em contradição com a realidade; a ilusão não é necessariamente falsa, isto é, irrealizável ou contraditória com a realidade. Uma jovem de condição modesta pode, por exemplo, criar a ilusão de que um príncipe virá buscá-la para casar. Ora, isso é possível: alguns casos do género realmente ocorreram. Dadas essas explicações, voltemos às doutrinas religiosas. Tornaremos a dizer: as doutrinas religiosas são todas ilusões, não se pode verificá-las, e ninguém pode ser obrigado a tê-las por verdadeiras, a crer nelas.
Sigmund FREUD, L'avenir d'une i/lusion, Paris, PUF,7.a ed., 1987, pp. 43-5.
 
Apresente uma análise crítica do texto de acordo com a seguinte orientação:
 
Indicação do problema abordado e da tese defendida pelo autor.
 
Apresentação do argumento principal e da justificação das premissas.
 
Avaliação do argumento contendo a indicação das linhas que poderiam ser seguidas setentássemos refutar a tese Freud.
 
O texto pretende esclarecer a natureza das crenças religiosas e defende a tese de que as crenças religiosas são ilusões sustentadas pelo desejo persistente de ultrapassar a angústia infantil.
 
O argumento de Freud compreende-se melhor se começarmos pela premissa que, no último parágrafo, acompanha a repetição da conclusão. Afirma Freud nesse parágrafo: as doutrinas religiosas não são verificáveis. Se aceitarmos esta premissa, o que não será difícil se pensarmos em "verificação" à semelhança da "verificação científica", torna-se natural perguntar que motivos podem levar as pessoas a acreditar e tão fortemente numa religião. De facto, é na explicação dos mecanismos psicológicos da crença que reside o essencial da tese de Freud e não, como poderia sugerir o termo "ilusão", na avaliação do conteúdo da crença segundo padrões racionais de justificação.
 
Para evitar mal-entendidos, Freud mostra que ilusão, erro e delírio não são sinónimos e que não diferem apenas em grau. Um erro pode ser defendido no curso normal de uma investigação e mesmo que o investigador não tenha qualquer motivação para o defender. O delírio é um erro total baseado na motivação patológica do sujeito. Quanto à ilusão, é uma crença não justificada por padrões racionais, mas baseada apenas em motivos subjectivos. A ilusão pode, por acaso, vir a revelar-se verdadeira. Portanto, o facto psíquico fundamental da ilusão não está no conteúdo da crença e no facto de esse conteúdo estar ou não de acordo com a realidade, reside antes na motivação ou desejo de acreditar.
 
Qual é então a raiz do desejo de acreditar? A crença religiosa tem, segundo Freud, origem nas angústias infantis e no desejo de as superar. Para satisfazer os desejos infantis a religião oferece: um pai que ama e protege, mas não tem os limites do pai de carne e osso; a promessa de justificação e ultrapassagem dos perigos e injustiças da vida; uma resposta tranquilizadora para os enigmas do universo. Qual é a força do argumento de Freud? Freud apenas mostra que a religião responde aos medos infantis e sugere que tais medos nunca são inteiramente ultrapassados, o que justifica a persistência das crenças religiosas.
 
Trata-se, portanto de uma hipótese plausível para explicar a força da crença e por que razão resiste ela aos esforços do cepticismo. Com isto manteve-se no plano estritamente psicológico e não provou, nem pretendeu provar, que o conteúdo de tais crenças esteja errado.
 
VII
 
A palavra "amor" não tem o mesmo sentido para um e para o outro sexo, e essa é uma origem dos graves mal-entendidos que os separam. Byron disse, com razão, que o amor é apenas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher. É a mesma ideia que Nietzsche exprime em A Gaia Ciência:
 
"A mesma palavra amor" diz ele, "significa de facto duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é apenas a dedicação, é uma doação total de corpo e alma, sem restrição, sem nenhuma consideração pelo que quer que seja. É essa ausência de condição que faz do seu amor uma fé, a única que ela possui. Quanto ao homem, se ele ama uma mulher, trata-se do amor que ele quer dela; portanto ele está muito longe de postular para si o mesmo sentimento que para a mulher; se houvesse homens que sentissem também esse desejo de abandono total, podem estar certos, não seriam homens."
 
Há homens que em certos momentos de sua existência podem ter sido amantes apaixonados, mas não há um único que possamos definir como "um grande apaixonado" em seus arrebatamentos mais violentos, eles jamais abdicam totalmente; mesmo se caem de joelhos diante da amada, o que eles desejam ainda é possuí-la, anexá-la; permanecer no centro de suas vidas, como sujeitos soberanos; a mulher amada é apenas um valor entre outros; eles querem integrá-la na sua existência, não absorver a sua existência inteira nela. Para a mulher, ao contrário, o amor é uma submissão total em proveito de um senhor."
Simone de BEAUVOIR, Lamoureuse, Lê deuxième sexe, Folio-Essais, Paris, Gallimard, t. 11, cap. II, pp. 376-7.
 
O texto apresenta um argumento de tipo indutivo para, em primeiro lugar, estabelecer uma importante distinção e, em segundo lugar e com base nessa distinção, extrair uma tese central relativa à condição da mulher.
 
Esclareça o problema, a tese principal avançada e o argumento utilizado.
 
O texto pretende esclarecer o significado do amor para o homem e para a mulher. Defende a tese de que há uma profunda assimetria entre homem e mulher na relação amorosa: para o homem o amor é uma forma de domínio e para a mulher o amor é uma forma de submissão, de alienação.
 
O argumento progride somando enunciados gerais: "o amor é apenas uma ocupação na vida do homem", "o amor é a própria vida da mulher", "o homem jamais abdica totalmente por amor", "para a mulher o amor é uma submissão total em proveito de um senhor". Estas premissas são apresentadas como sendo pacíficas e consensuais já que nenhuma é justificada.
 
Avalie a posição de Simone de Beauvoir. As razões apresentadas são ou não suficientes para apoiar a tese central?
    
  O conteúdo do argumento é claro e podemos facilmente admitir que há pelo menos um caso de relação amorosa que tem a estrutura assimétrica indicada. É óbvio que o argumentador, não dando exemplos, espera que o destinatário os tenha em mente e, por assim dizer, complete com eles o argumento. Mas isto é motivo para suspeitarmos que o argumento encaminhe o leitor para uma generalização precipitada, passando de alguns exemplos impressivos à totalidade das relações amorosas, e totalmente desproporcionada em relação às premissas. Por outro lado, o argumento não fornece uma explicação para a estrutura da relação amorosa que apresentou, pretende dizer-nos o que se passa e não por que razão se passa assim. O que nos permite perguntar se, no seu todo, o argumento não pretende apenas transformar situações episódicas, contingentes, em algo de essencial, permanente e imutável.
 
 
 
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Nesta secção podemos encontrar um conjunto de Fichas de Estudo relativas a cada unidade.
Tal como acontece ao longo deste site apenas algumas actividades de cada unidade foram seleccionadas e apresentadas.