unidade 2
 
 
 
Capítulo 1
Noções básicas sobre os conceitos de acção e de valor
 
O que é uma acção?
    
1.1. Acção e movimento: a acção humana não se reduz ao comportamento observável
 
Todos nós distinguimos intuitivamente entre as coisas que fazemos e aquelas que nos acontecem. Nas coisas que fazemos há uma certa causalidade ou iniciativa que parte de nós. Naquelas que nos acontecem limitamo-nos a ser receptores de efeitos que nós não iniciámos.
Comprar uma cautela é algo que eu faço; que me saia a lotaria é algo que me acontece. Suicidar-me é algo que eu faço; morrer é algo que me acontece. Quando o ladrão me rouba a carteira, o roubo da minha carteira é algo que o ladrão realiza ou faz, mas é algo que a mim me acontece. A causa ou origem da acção está no gatuno, não em mim. Ele rouba-me, eu sou roubado.
A distinção entre a voz activa e a voz passiva dos verbos - comum a muitas línguas - reflecte esta dicotomia: acção e paixão, o que fazemos e o que nos acontece.
 
O que é uma acção? Que características deve uma coisa ter para ser considerada uma acção?
Vamos considerar as diversas propriedades de uma acção em separado para chegarmos depois a uma caracterização global.
 
Uma acção é um acontecimento.
 
Considera-se que todas as acções são acontecimentos,ou seja, são coisas que acontecem num dado momento e num certo lugar. Assim ir à praia é um acontecimento porque vamos a uma praia num determinado local e em dado momento- normalmente no Verão, de manhã ou de tarde. Mas nem tudo o que acontece é uma acção, ou seja, se todas as acções são acontecimentos nem todos os acontecimentos são acções. Um furacão é um acontecimento mas não é uma acção. Como não basta que uma coisa aconteça para que haja uma acção temos de aprofundar este conceito.
 
Uma acção é algo que envolve um agente.
 
O que distingue a proposição João foi à praia da proposição João sofreu um ataque cardíaco?A primeira proposição fala-nos de algo que alguém fez. A segunda de algo que simplesmente aconteceu a alguém. Uma acção é um acontecimento que envolve um agente(o sujeito de uma acção) mas isso não é suficiente para que haja acção. Repara que nestes dois acontecimentos está envolvido um agente- o João – mas no primeiro caso ele faz acontecer algo enquanto no segundo caso algo lhe acontece.
 
Uma acção é algo que um agente faz acontecer.
 
Uma acção é algo que acontece por iniciativa do sujeito nela envolvido. Ir à praia é algo que João faz acontecer mesmo que não o deseje ( é de má vontade que obedece á ordem do pai para se juntar à família). Sofrer um ataque cardíaco é algo que acontece no organismo do João mas não resulta de vontade sua.
 
Uma acção é um acontecimento intencional (nem tudo o que fazemos é uma acção).
 
Imaginemos que,inadvertidamente,escorrego numa casca de banana e acabo por entornar uma garrafa de coca-cola em cima do livro de um colega que estudava comigo no bar da escola. Sujar o livro do colega foi algo que eu fiz. Mas será isto uma acção?
È evidente que fiz com que algo acontecesse:estraguei o livro do meu colega. Mas para que um acontecimento provocado por um agente seja uma acção é importante saber o modo como aconteceu.
 
Uma acção é algo que um agente faz intencionalmente
 
 
Acção e movimento: a acção humana não se reduz ao comportamento observável
 
No dia-a-dia o termo acção é usado, em regra, para  designar movimentos directamente observáveis e os seus resultados. Assim, falamos da acção das chuvas e das marés, da acção de um ácido, dos actos dos animais e assim por diante.
Também é habitual pensar nesses termos a acção humana, isto é, identificando-a com movimentos observáveis e seus efeitos. Acção seria sinónimo de comportamento observável. Por isso podemos ir ao ponto de opor pensamento e acção ou reflexão e acção. A reflexão seria apenas o processo interior, subjectivo, e a acção, o comportamento físico, concreto e observável.
 
 
A estrutura da acção
 
Imaginemos a seguinte situação:
 
MIGUEL está prestes a concluir o último ano do ensino secundário. Brilhante aluno em todas as disciplinas, inclusive Educação Física, tem como disciplinas predilectas a Matemática e várias línguas em que se expressa fluentemente. Além disso, destacou-se pela sua capacidade de representação e pela sua versatilidade como actor nas diversas peças encenadas pelo grupo de teatro da sua escola (...)
 
Analisando este caso e o que o seu protagonista faz, podemos destacar os elementos, as fases ou os aspectos que constituem a estrutura da acção. Compreender uma acção é descrevê-la mediante o uso de determinados conceitos que se referem aos seus momentos constitutivos.
Tendo presente o exemplo dado, evidenciemos os momentos  
 
 
O MOTIVO - É aquilo que nos impele a agir ou a fazer algo. É a razão que justifica a nossa acção. Responde à questão:
"Porque fazes (fizeste ou vais fazer) isto?"
 
A INTENÇÃO - As noções de motivo e de intenção estão extremamente próximas uma da outra porque só falamos de acções intencionais se elas forem determinadas por um motivo ou razão que as justifique: uma acção é realizada intencionalmente quando é realizada por algum motivo.
 
O  FIM OU FINALIDADE - Miguel quer ser actor de cinema. É a sua intenção.
Se lhe perguntarmos para que quer exercer tal profissão, estamos a procurar saber qual a finalidade ou o fim dessa sua opção.
 
A DECISÃO - O motivo pelo qual agimos ou a intenção que nos orienta para um determinado fim implica também a decisão de o alcançar.
 
OS MEIOS - São os procedimentos, instrumentos ou actos a que recorremos para realizar aquilo que projectámos fazer ou ser.
 
O RESULTADO -É o que deriva da vontade de ser ou de fazer aquilo que se projectou ser ou fazer tendo em conta as circunstâncias ou o contexto. Miguel pretendia ser actor de cinema. Concretizou esse desejo.
 
AS CONSEQUÊNCIAS - São o modo como o resultado da nossa acção afecta os outros e também a nós próprios.
Miguel tomou-se um actor de cinema famoso.
 
 
O que são os valores?
 
Falar de um valor é falar do critério que justifica as nossas escolhas e preferências quer se trate de actos ou de objectos: é a razão fundamental da nossa decisão. A atitude valorativa é uma constante da nossa existência: em nome da amizade preferimos controlar e orientar noutra direcção uma atracção física pela namorada ou mulher do nosso amigo.
 
Ao tomarmos decisões agimos segundo valores que constituem o fundamento, a razão de ser ou o porquê (critério) de tais decisões.
 
Mediante os valores hierarquizamos os actos e os objectos: uns são mais belos, outros são feios ou horríveis; alguns são bons, outros menos e outros maus; alguns serão úteis e outros inúteis: dizer que preferimos, em princípio, o belo ao feio, a lealdade à deslealdade, a humildade ao autoconvencimento, a felicidade à infelicidade, o bem ao mal, é dizer que certos estados de coisas, actos ou instituições estão mais perto dos nossos valores, isto é, dos critérios que os tomam preferíveis.
 
 
A diversidade dos valores
 
IMAGINEMOS a seguinte situação:
 
Várias pessoas encontram-se na sala de espera do Aeroporto da Portela aguardando o momento de embarcar no avião que as transportará para Roma. Apesar de quase todas terem preferido ir a Roma e não a qualquer outro lugar do mundo, fizeram-no por razões ou motivos diferentes. Vejamos, a título de exemplo, alguns casos:
 
- Basílio, católico fervoroso, considera a Praça de S. Pedro um lugar sagrado e pretende assistir à homilia pascal e ser abençoado pelo papa.
 
- Telmo desloca-se à capital italiana em viagem de negócios. Há boas perspectivas de venda dos produtos da empresa que representa. Não gosta de Roma e para umas boas férias preferiria, sem hesitações, Florença, Siena e mesmo Nápoles.
 
Dissemos que os valores dão ao agente um motivo para agir. Ora, os valores são plurais, i. e., diversificam a acção humana em várias dimensões. Reportando-nos ao exemplo dado verificamos que diversos valores inspiram ou motivam uma acção: viajar para Roma. A acção de Basílio é orientada por valores religiosos;
 
TeImo desloca-se a Roma para rematar um negócio, ou seja, o motivo da viagem é um valor económico;
 
 
Factos e valores: juízos de facto e juízos de valor
 
O que são factos? Um facto é algo que acontece. O que são valores? Os  valores são ideias que nos levam a realizar certas acções, a preferir determinadas coisas e a julgar certos factos como bons ou maus, belos ou feios, justos ou injustos, interessantes ou desinteressantes,etc. Podemos explicitar a distinção entre factos e valores esclarecendo tanto quanto possível a diferença entre juízos de facto e juízos de valor.
 
Consideremos os seguintes juízos:
    
a) A interrupção voluntária da gravidez é proibida na Polónia.
c) Belmiro de Azevedo é um dos homens mais ricos do mundo.
 
Os juízos a), c) são juízos descritivos e informativos. Descrevem certos aspectos da realidade,informam-nos sobre a atitude do estado polaco acerca da legalidade do aborto, sobre a riqueza de Belmiro de Azevedo e a aparência física da Manuela. A estes juízos atribuímos claramente um valor de verdade,isto é, são verdadeiros ou falsos. Neste caso, a) e c) são verdadeiros.
 
 
O QUE SE APRENDEU NESTE CAPITULO
 
 
1 - Uma acção é um comportamento intencional. Não podemos reduzir a acção ao puro e simples movimento: um movimento que não é determinado por uma intenção ou propósito não tem direito ao nome de acção. Uma acção é algo que um agente faz intencionalmente
 
2 - A acção humana desenvolve-se no tempo e é constituída por diversos momentos. É uma totalidade na qual estão ligados diversos elementos.
 
a) O motivo - aquilo que justifica a acção, a sua razão de ser ou o seu porquê.
b) A intenção - o que o agente quer fazer ao agir.
c) O fim - aquilo que se projecta atingir ou realizar,    o objectivo para que a acção se orienta.
d) A decisão - indica o momento em que se escolhe um caminho e se verifica o compromisso com um determinado propósito ou fim afastando outros do horizonte.
e) Os meios - são aquilo a que recorremos para realizar o que projectámos.
f) O resultado - o que o agente realizou ou conseguiu.
g) As consequências - o modo como o resultado da nossa acção afecta os outros e também a nós próprios.
 
3 -  Os valores são ideias que influenciam as nossas decisões e acções, as nossas escolhas e preferências. Há diversos tipos de valores (morais, estéticos, religiosos e políticos) dado que há diversos domínios em que a acção humana se exerce.
Os juízos de facto são descritivos e informativos possuindo claramente  um valor de verdade. Os juízos de valor são em boa parte normativos e não é claro que possuam um valor de verdade. Será que podemos falar de factos objectivos em campos como a ética, a estética e a religião? Será que fora do campo da ciência tudo é uma questão de preferência, de gosto e de sentimento pessoal, de opinião? Será que por exemplo, os juízos morais nada mais são do que a expressão dos sentimentos de cada um de nós ou a expressão de um sentimento colectivo maioritário?
 
 
 
Neste capítulo o aluno irá aprender o que caracteriza uma acção e qual a sua estrutura,isto é, os elementos que a constituem.
Aprenderá também o que são valores e qual a sua relação com as nossas decisões e acções.
Efectuar-se-à a distinção entre juízos de facto e juízos de valor e será lançada a questão de saber se tal como os juízos de facto, os juízos de valor também têm um valor de verdade podendo portanto ser verdadeiros ou falsos.